As Janelas Que Permanecem Acesas
O nome da cidade nunca foi o que mais importou, mas havia um rio que a atravessava com uma calma quase distraída, como se levasse consigo histórias que ninguém mais lembrava de contar. As margens tinham árvores antigas, de troncos largos e sombra fresca, e um caminho de pedras onde as pessoas passavam todos os dias sem perceber que ali também se acumulavam pequenos mundos.
Catarina
cresceu ali.
Loira,
de olhos azuis que não sabiam ficar em silêncio. Havia algo neles que parecia
sempre à beira de dizer — como se as palavras se formassem antes mesmo de
existir voz. Quem olhava por mais de alguns segundos tinha a sensação de que
estava sendo lido, não o contrário.
Ela
carregava uma caneta.
Não
era exatamente diferente das outras, ao menos não para quem via de fora. Corpo
simples, tinta comum. Mas, quando tocava o papel, alguma coisa se deslocava.
Como se a ponta não escrevesse sozinha, como se abrisse pequenas passagens.
Catarina
escrevia sentada perto do rio, com os pés quase tocando a água, inventando
caminhos que não existiam no mapa da cidade.
Uma
vez desenhou uma ponte de madeira ligando as duas margens, fina, quase frágil —
e por um instante teve certeza de ter ouvido passos atravessando. Não olhou.
Preferia guardar a dúvida intacta.
Em
outra tarde, escreveu sobre uma casa escondida entre as árvores, com janelas
sempre acesas, mesmo durante o dia. Durante semanas, sempre que passava por
aquele trecho, diminuía o passo. Nunca encontrou a casa, mas também nunca
deixou de sentir que ela estava ali, apenas um pouco deslocada do mundo
visível.
Houve
também o dia em que inventou um barco pequeno, sem dono, que percorria o rio
durante a madrugada, levando embora aquilo que as pessoas não conseguiam dizer.
Na manhã seguinte, a água parecia mais silenciosa. Ou talvez fosse apenas
impressão — Catarina gostava de não decidir.
Mas
foi numa manhã de inverno, dessas em que o frio desenha o ar, que a caneta
escreveu algo que não ficou apenas no papel.
Ela
desenhou um banco.
Simples,
de madeira clara, encostado numa das árvores mais antigas da margem. Escreveu
que ali alguém sempre encontraria descanso, mesmo sem saber que procurava. Não
deu nome a esse alguém. Não explicou.
Dias
depois, passando pelo mesmo caminho de pedras, Catarina diminuiu o passo.
O
banco estava lá.
Não
exatamente como havia desenhado — ou talvez fosse impossível lembrar com
precisão —, mas havia um banco, encostado na árvore, com a madeira ainda
recente, como se tivesse chegado há pouco. Ninguém parecia estranhar. As
pessoas sentavam, descansavam, olhavam o rio.
Catarina
não contou a ninguém.
Sentou-se
uma vez, com cuidado, como se pudesse desfazer aquilo ao tocar. O banco
sustentou seu peso com naturalidade. O rio seguia como sempre. Mas havia algo
diferente, quase mínimo, como se uma pequena parte do mundo tivesse cedido.
Na
cabeça dela, tudo continuava se organizando de um jeito próprio. Corredores,
portas, escadas. E agora, talvez, algumas saídas.
Crescer
foi acontecendo aos poucos, sem aviso.
Vieram
os dias ocupados, as responsabilidades que se acumulam sem fazer barulho, as
escolhas que não se escrevem antes de acontecer. A caneta continuou existindo,
mas passou a ficar mais tempo esquecida em gavetas, bolsas, cantos onde a
rotina guarda o que não sabe mais usar.
Ainda
assim, às vezes, ela voltava ao rio.
Já
não sentava tão perto da água. Ficava em pé, olhando o movimento lento, como
quem tenta reconhecer alguma coisa que não se mostra inteira. Os olhos
continuavam expressivos, mas havia neles uma espécie de pausa — não ausência,
talvez apenas um outro tipo de escuta.
O
banco ainda estava lá.
Um
pouco gasto agora, a madeira já marcada pelo tempo e pelos corpos que passaram.
Catarina nunca tentou escrever outro igual. Nem tentou entender se aquilo tinha
sido um acaso, um desvio, ou apenas um daqueles momentos que não pedem
explicação.
Catarina
não realizou todos os sonhos que a caneta um dia colocou no papel.
Alguns
ficaram pelo caminho, dissolvidos como tinta em contato com a água. Outros se
transformaram em coisas menores, quase imperceptíveis, que talvez ainda
existam, só que em outra forma. E havia aqueles que permaneciam intactos,
guardados em algum lugar da memória, como páginas que ninguém rasgou.
Em
certas noites, quando o silêncio da cidade se aproxima do que o rio sempre foi,
Catarina abre um caderno qualquer.
Não
escreve como antes.
Mas
segura a caneta por um tempo maior do que o necessário.
Como
se ainda reconhecesse, no peso leve entre os dedos, alguma coisa que insiste em
permanecer acesa.
Silvia
Marchiori Buss
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