A Lentidão das Coisas Vivas

O caminho não levava exatamente a lugar nenhum que pudesse ser nomeado. Era mais um intervalo entre pontos — uma faixa de terra batida que atravessava o campo como quem aceita passar sem permanecer.

Ela o percorria com frequência suficiente para que o corpo já soubesse onde pisar, mas nunca a ponto de torná-lo hábito. Havia sempre um leve estranhamento, como se o campo mudasse de intenção a cada dia.

Naquela manhã, o ar ainda guardava um resto de frio. Não o frio que afasta, mas o que se infiltra devagar pelas roupas, pedindo atenção ao próprio movimento. O sol estava presente, mas não se impunha — espalhava-se em camadas finas, como quem prefere tocar do que iluminar.

Ela parou antes da curva.

Ali, onde a terra se abria um pouco e deixava ver a extensão irregular do terreno, havia uma árvore. Não particularmente grande, nem bonita no sentido fácil. O tronco inclinado, os galhos mais baixos carregando marcas antigas — cortes, talvez, ou apenas o desgaste de estações repetidas.

Ainda assim, permanecia.

Não com força. Com insistência.

Ela se aproximou sem pressa. A grama ao redor não era uniforme; havia partes mais altas, outras já deitadas, como se o vento tivesse decidido caminhos próprios. Entre elas, pequenas flores quase invisíveis se mantinham abertas, sem expectativa de serem vistas.

A mão dela tocou o tronco.

A superfície não era lisa. Havia relevos, pequenas falhas, uma textura que não se oferecia inteira de uma vez. Era preciso permanecer um pouco mais para sentir melhor. Como se o toque exigisse tempo para acontecer de fato.

Ela não pensava em nada específico.

Ou talvez pensasse em muitas coisas que já não pediam nome.

Ficou ali.

O campo não respondia, mas também não ignorava. Havia uma espécie de convivência silenciosa, onde nada precisava se destacar para existir.

Mais ao fundo, um pedaço de terra havia sido revirado recentemente. A cor mais escura indicava isso — uma tentativa de recomeço, ou apenas continuidade. Era difícil saber. A terra, quando mexida, não anuncia intenções.

Um inseto passou rente ao braço dela, sem tocar. O som foi breve, mas suficiente para marcar presença. Logo depois, desapareceu no mesmo ar de onde tinha vindo.

Ela soltou a árvore.

Deu alguns passos para trás, não por decisão clara, mas porque o corpo pediu distância — não de afastamento, mas de medida. Como se precisasse ver aquilo de novo, sem o contato.

A árvore permaneceu.

O campo também.

Nada ali pedia urgência.

Havia um tempo próprio, quase subterrâneo, que não se deixava acelerar. Um tempo que não dependia dela, nem de ninguém. Ainda assim, era possível, por instantes, acompanhar seu ritmo — como quem ajusta a respiração sem perceber.

Ela voltou ao caminho.

A curva agora estava logo à frente, mas já não parecia levar a outro lugar. Era apenas continuação.

Ao caminhar, sentiu o peso leve do próprio corpo — não como carga, mas como presença. Cada passo encontrava o chão com uma pequena demora, como se houvesse algo entre o gesto e o toque que não podia ser encurtado.

O campo ficava para trás sem se afastar.

E, dentro dela, alguma coisa seguia nesse mesmo compasso — sem pedir chegada, sem anunciar fim, apenas existindo no intervalo exato entre um passo e outro.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

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