Essas Mulheres Encantadoras
Naquela terça-feira chovia fino, daquele jeito que não molha direito nem vai embora.
O
toldo da cafeteria pingava num balde de plástico colocado ali sem muita
esperança de resolver o problema. O barulho era ritmado: uma gota, outra,
depois duas juntas.
Helena
estava sentada perto da janela.
Não
esperava ninguém, mas também não parecia alguém que estivesse sozinha. Havia
uma calma estranha no modo como ela segurava a xícara. Não bebia. Apenas
deixava o café esfriar enquanto olhava a rua.
As
pessoas passavam rápido, como quem tem medo de perder alguma coisa que ainda
não aconteceu.
Helena
tinha aprendido a não correr mais atrás de nada.
Do
outro lado da rua, uma mulher hesitou antes de atravessar.
Parecia
decidir se entrava ou se continuava caminhando. Acabou entrando.
Ela
sacudiu o guarda-chuva na porta, pediu um café curto e procurou lugar para
sentar. Não havia mesas livres.
Exceto
a de Helena.
—
Posso?
Helena
levantou os olhos como se já soubesse.
—
Claro.
A
mulher colocou a bolsa sobre a cadeira e sentou.
Chamava-se
Laura, embora isso só viesse a ser dito muitos minutos depois.
Primeiro
veio o silêncio.
Depois
Laura falou, olhando para a rua:
—
Engraçado… eu vinha andando e tive a impressão de que precisava entrar aqui.
Helena
respondeu com um leve sorriso.
—
Algumas ruas fazem isso com a gente.
Laura
olhou para ela pela primeira vez.
Havia
algo no rosto de Helena que não era tristeza exatamente. Era mais como alguém
que atravessou muitas histórias e resolveu não explicar nenhuma.
Elas
conversaram pouco.
Mas
ficaram.
Quase
uma hora depois entrou Marta.
Marta
não parecia feita para aquele lugar. Tinha pressa nos movimentos, nas palavras,
na forma de tirar o celular da bolsa, de verificar mensagens que claramente não
eram urgentes.
Sentou
na mesa ao lado.
Escutou
duas frases soltas.
Depois
se virou.
—
Desculpem interromper… mas vocês estavam falando de ruas que chamam a gente?
Laura
riu.
—
Parece loucura quando dito em voz alta.
—
Nem tanto — respondeu Marta. — Eu passei por aqui sem querer. Nem era o meu
caminho.
Helena
apenas observava.
Havia
algo quase curioso na maneira como aquelas duas tinham chegado.
Como
se já estivessem previstas.
A
chuva continuava.
Depois
entrou Célia.
Célia
trouxe consigo um cheiro leve de perfume antigo e uma caixa pequena embrulhada
em papel pardo. Pediu chá, olhou ao redor, caminhou direto até a mesa das três
— como se fosse o único lugar possível.
—
Espero que não se importem.
Sentou
antes mesmo da resposta.
Colocou
a caixa sobre a mesa.
Ficaram
olhando para ela.
—
Eu achei isso ontem — disse Célia.
Ninguém
perguntou o quê.
Ela
abriu.
Dentro
havia um pequeno espelho antigo.
A
moldura era escura, trabalhada com figuras quase apagadas pelo tempo.
Marta
se inclinou.
—
Bonito.
Célia
virou o espelho.
Primeiro
apontou para Laura.
Depois
para Helena.
Depois
para si mesma.
Nenhuma
delas comentou nada.
Mas
todas perceberam a mesma coisa.
O
espelho demorava um segundo a mais do que deveria para devolver o rosto de cada
uma.
Como
se primeiro precisasse lembrar quem elas eram.
Helena
foi a única que falou.
Baixo.
—
Interessante.
Célia
perguntou:
—
O quê?
Helena
olhou as três mulheres sentadas ali.
Quatro
desconhecidas numa mesa que minutos antes estava vazia.
A
chuva diminuía lá fora.
—
Nada — disse ela.
Mas
naquele momento nenhuma das quatro percebeu algo simples.
Nenhuma
delas tinha visto quando as outras chegaram.
Silvia
Marchiori Buss
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