Vupt

 Naquela manhã, tudo se transformara.

Um minuto antes, Mirtes estava viva — de salto vermelho, brincos de argola do tamanho de pires e um lenço estampado que gritava “olhem pra mim!”. No minuto seguinte... vupt! Estava morta.

“Como assim?”, resmungou, tentando se equilibrar num chão que nem chão era. “Cadê o túnel? Cadê a luz? Cadê, pelo menos, um aviso sonoro? Um cartaz de atenção, passagem súbita?”

Nada. Nenhum clarão, nenhum coral, nem uma harpa mal tocada. Só um vento frio de ar-condicionado de repartição.

— Licença... — murmurou — eu, hein, morrer assim, de sopetão, sem nem uma despedida decente?

Foi quando surgiu uma mulher de cinza, prancheta na mão, expressão de quem já viu gente demais chegar atrasada pra própria morte.
— Nome completo, por favor.
— Mirtes A, com “t”, não com “d”. E quero registrar uma reclamação sobre a falta de protocolo.

A mulher nem piscou.
— Setor de chegada, fila da esquerda. Uniforme no armário 32.

Mirtes abriu o armário e quase desmaiou — se é que podia desmaiar de novo.
Uma túnica bege. Reta. Sem corte. Sem bolso. Sem graça.

— Isso aqui é roupa ou castigo?

— É o traje padrão. — disse a moça, já chamando o próximo da fila.

Mirtes vestiu a túnica contrariada e se examinou num espelho que devolvia uma imagem meio apagada.
— Misericórdia. Nem reflexo decente. E sem batom, sem brinco, sem nada!

Um alto-falante ecoou lá de cima — ou de lado, difícil saber:
— Atenção, novos integrantes! Dirijam-se ao Salão de Orientação.

No salão, dezenas de recém-chegados pareciam participar de um curso de adaptação. Uma tela brilhava: “Bem-vindo à Eternidade — módulo introdutório”.

Mirtes levantou a mão:
— Oi, alguém sabe quanto tempo dura isso aqui? Eu tinha manicure às dez.

Um sujeito respondeu:
— Aqui o tempo não existe.
— Ah, ótimo. Então vou reclamar pra sempre!

Durante a palestra sobre “condutas no novo ambiente”, Mirtes interrompeu outra vez:
— E o figurino é sempre assim? Bege institucional?

O instrutor suspirou.
— Aqui buscamos simplicidade.
— Pois eu busquei a vida toda o contrário e fui muito feliz, obrigada.

Algumas pessoas riram. Outras pareciam resignadas.

Mirtes cruzou os braços, inconformada:
— Nem morrer me deixaram do meu jeito. Tudo bege, tudo igual... que tédio cósmico.

Mas quando se sentou, a túnica — talvez cansada da ladainha — ganhou um leve brilho dourado nas bordas. Quase imperceptível.

Mirtes notou e deu um sorrisinho satisfeito.
— Sabia que bege não me vencia.

E seguiu em frente, sem túnel, sem luz, mas com um brilho teimoso — o dela.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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