Uma Flor na Janela

Durante meses, ninguém notou a flor.

Era uma flor comum — talvez uma begônia, ou daquelas que crescem sozinhas em potes de sorvete reciclados.
A janela ficava no quinto andar de um prédio antigo, na rua Saint-Martin.
Um bloco retangular de concreto, onde todas as janelas pareciam iguais.

Mas naquela… havia algo diferente.

Toda manhã, a cortina se abria por exatos três minutos.
Três.
Depois se fechava.
E a flor continuava lá — intacta.
Como se jamais murchasse.

O homem do quinto andar chamava-se Arthur Rios.
Tinha pouco mais de cinquenta anos.
Ex-funcionário da central elétrica, solitário, quase invisível.
Pagava o condomínio em dinheiro vivo.
Deixava os boletos alinhados na portaria.
Não recebia visitas.

Até o dia em que começaram os bilhetes.

O primeiro apareceu colado no vidro do elevador:

“Quem cuida de uma flor não morre por dentro.”

As senhoras acharam bonito.

O segundo dizia:

“A flor não murcha quando alguém a observa.”

O terceiro… ninguém entendeu:

“Hoje ela falou comigo.”

A síndica subiu para conversar.
Ninguém respondeu.
O zelador disse ter ouvido uma voz baixa, como quem lê um diário em voz alta.

No dia seguinte, Arthur deixou um aviso no mural da portaria:

“Não mexam na minha flor. Ela precisa me ver.”

Depois disso, a flor começou a mudar de cor.
Primeiro amarelou.
Depois avermelhou.
Mas não era tinta — era luz.
Um brilho interno, discreto, quase vivo.

Pouco tempo depois, Arthur desapareceu.

O apartamento estava limpo, silencioso.
Na mesa, um caderno aberto.
As anotações diziam:

“Hoje ela se moveu.”
“Disse que sentia frio.”
“Pediu que eu não a deixasse sozinha.”
“Fiz o que ela queria.”

A janela estava entreaberta.
E no parapeito, a flor — agora inteiramente branca — inclinava-se para fora, como se olhasse a rua.
Ao lado, um bilhete:

“Fui cuidar dela de perto.”

Nunca mais o viram.
Mas, todas as manhãs, às sete e quinze,
a cortina se abria por três minutos.
E a flor continuava lá.
Viva.

 

Meses depois, o apartamento foi vendido.
A nova moradora chamava-se Mariana.
Tinha trinta e três anos e era professora de artes.
Disse à imobiliária que escolhera o imóvel por causa da janela.
— Gosto de janelas com flores — explicou, sorrindo.

No dia em que recebeu a chave, subiu sozinha.
Abriu a porta.
Ficou parada.
O ar era doce, pesado, como se alguém tivesse acabado de sair.
Na mesa, o mesmo vaso.
A flor branca, intacta.
Ela hesitou.
Tocou nas pétalas.
O toque pareceu quente.

 

-O diário de Mariana-

 

3 de abril

Choveu o dia inteiro.
Há um cheiro doce no ar.
A flor me observa.

 

6 de abril
Encontrei o caderno de Arthur.
Ele escrevia sempre às sete e quinze.
Hoje fiz o mesmo.
Quando o sol bateu, a flor se moveu.
Ouvi um som leve.
Uma respiração.

 

10 de abril
Os vizinhos perguntam se a flor ainda é branca.
Não é.
Agora está rosada.
Quase da cor da minha pele.

 

17 de abril
Sonhei com um homem escrevendo.
Tinha o meu rosto.
Acordei e alguém havia escrito no vidro:

“Fui cuidar de perto.”

 

23 de abril
Descobri o nome da flor: Epipogium aphyllum.
Flor-fantasma.
Vive no escuro.
Alimenta-se de matéria morta.

 

30 de abril
Não vou mais sair.
A flor precisa de mim.
E eu dela.
Ela me prometeu que florescemos juntas.

 

Duas semanas depois, os vizinhos notaram o retorno da cortina às sete e quinze.
Agora, havia duas flores na janela.
Ambas rosadas.
Uma parecia inclinar-se em direção à outra.

O cheiro no corredor tornou-se intenso.
Adocicado.
Quase insuportável.

A síndica mandou abrir o apartamento.
O ar estava morno, úmido.
O chão, coberto de pequenas manchas avermelhadas.
Na mesa, o caderno de Mariana.
E dois vasos com flores idênticas, mergulhadas num líquido rubro.

No armário, papéis datilografados, frases curtas:

“A solidão não mata de repente.
Primeiro pede companhia.
Depois exige permanência.”

“A flor nunca precisou de mim.
Fui eu quem precisou dela.”

O caso foi arquivado como desaparecimento voluntário.
Mas, no início do mês seguinte, o zelador encontrou na portaria um envelope pardo.
O pagamento do condomínio.
Dinheiro vivo.
Assinatura:
Arthur R e Mariana L.

 

 

Na rua Saint-Martin, quem passa ainda vê o prédio.
As janelas são todas iguais.
Mas, se o sol incide no ângulo certo,
uma delas reflete algo diferente:

duas silhuetas sentadas lado a lado,
uma flor entre elas,
e o leve movimento de uma cortina abrindo-se sozinha —
sempre às sete e quinze.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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