Trilogia
Trilogia
1.
As Coisas que Não Quero Saber — Uma
História de Silêncio e Whisky
2.
As Coisas que Não Quero Sentir — Um
Brinde Àquilo Que Não Se Esquece
3.
As Coisas que Não Quero Dizer — Onde
o Silêncio Já Diz Por Si
Parte Um: As Coisas que Não
Quero Saber
(Uma História de Silêncio
e Whisky)
Ela dizia que o problema
das pessoas era querer saber demais.
Beatriz, não. Beatriz se bastava na penumbra.
Há muito deixara de buscar sentido nas coisas — e talvez fosse justamente isso
que a mantinha de pé.
Morava num prédio antigo,
onde os canos suspiravam e o elevador se arrastava como um velho poeta
asmático.
Lá de cima, via-se um pedaço da cidade e o reflexo trêmulo dos néons — como se
a noite tivesse piscadas de ironia.
Era o cenário perfeito para quem havia decidido não querer saber de nada.
O interfone tocou.
Ela ignorou.
Tocou de novo, insistente.
— Já sei quem é — murmurou,
acendendo um cigarro.
E era. Julián, o visitante
das noites longas.
Sempre ele: o sobretudo encharcado, o humor insolente e o olhar de quem traz
notícias que ninguém pediu.
Ela abriu a porta sem
entusiasmo.
— Entrou a chuva junto contigo.
— As duas insistem — disse ele, tirando o chapéu.
Julián pendurou o casaco na
cadeira, serviu-se do whisky sem convite.
O som do gelo batendo no copo era quase íntimo.
— Trouxe novidades.
— Dispense. Estou em abstinência.
— De quê?
— De fatos.
Ele riu, acendeu um cigarro
também.
— Então não pergunte.
— Eu nunca pergunto, Julián. Você é quem responde.
Silêncio. Só o chiado da
chuva contra a vidraça.
Ela olhava para fora; ele olhava para ela.
Os dois, por dentro, sabiam que o jogo era sempre o mesmo: ela dizia não querer
saber, e ele vinha apenas para lembrá-la de que queria, sim.
— Seu ex apareceu na
televisão — disse ele, casual, como quem comenta o tempo.
Beatriz não se moveu.
— Ainda vivo?
— Vivo e loiro.
— Lo... o quê?
— Loiríssimo. Peruca.
— Ah. Ele sempre teve vocação para o ridículo.
Beatriz soltou a fumaça
devagar, deixando o ar mais espesso.
— O que dizia?
— Pregava sobre “reconexão interior”.
— Natural. Ele nunca se conectou a ninguém.
Os dois riram sem som. O
riso cansado dos que já se decepcionaram o suficiente para achar graça.
Ela levantou-se, foi até a
janela.
A rua refletia luzes borradas, carros sem destino, um gato atravessando com a
elegância de quem ignora a pressa humana.
— Sabe, Julián — disse, sem olhar pra trás —, o mundo anda cheio de gente
querendo ser descoberta por engano.
— E a senhora?
— Eu? Eu só quero continuar desconhecida de mim mesma. Dá menos trabalho.
Ele bebeu o resto do
whisky, observando a curva do ombro dela.
Por um instante, pareceu querer dizer algo — mas preferiu o silêncio.
Foi então que se traiu.
— A propósito — disse, com
hesitação —, ouvi dizer que o tal ex andou perguntando por você.
Ela se virou devagar.
— Onde ouviu isso?
— No café da esquina. Uma amiga em comum comentou.
— Ah. Então agora você é distribuidor de rumores?
O ar ficou denso.
Beatriz apagou o cigarro, fria.
— Eu te disse, Julián. Não quero saber.
— Era só um detalhe...
— Detalhes são como farpas. Entram pequenos, infeccionam grandes.
Ele tentou sorrir, mas o
gesto ficou preso no rosto.
— Não imaginei que isso fosse ofender.
— Não ofende. Cansa.
Julián colocou o chapéu,
devagar.
— Quer que eu feche a porta?
— Feche. Dessa vez, feche.
Ele saiu.
Beatriz ficou parada, ouvindo o barulho dos passos dele descendo as escadas —
firmes, mas sem convicção.
Depois, sozinha, murmurou:
— Há coisas que não quero
saber. E há as que não quero lembrar.
Apagou as luzes, e deixou a
cidade falando sozinha pela janela.
Parte Dois: As Coisas que
Não Quero Sentir
(Um Brinde Àquilo Que Não
Se Esquece)
Passaram-se semanas. Talvez
meses.
Beatriz não contou.
Tinha a impressão de que o tempo andava em círculos, como um gato que não
decide onde dormir.
Naquela noite, o silêncio
do apartamento parecia mais bêbado que ela.
Desceu as escadas devagar, sem motivo definido — só a vaga vontade de ouvir
vozes que não a julgassem.
A cidade respirava um ar morno e confuso, meio chuvoso, meio cansado.
O tipo de noite em que até as sombras pedem companhia.
O bar chamava-se Luna,
embora não houvesse lua no céu.
Lá dentro, o ar tinha cheiro de limão velho e promessas esquecidas.
O pianista tocava algo lento e sem autoria.
Beatriz pediu um whisky.
O garçom não perguntou o nome — e ela achou isso uma gentileza.
Foi então que o viu.
No canto, sozinho, o mesmo sobretudo gasto, o mesmo ar de quem sabe demais.
Julián.
Não se surpreendeu.
Ele era o tipo de homem que aparece até quando não é convidado.
— Não esperava te ver fora
da tua torre — disse ele, quando ela se aproximou.
— As torres também cansam de si mesmas.
— E vieram desabar no bar.
— Melhor do que desabar em lembranças.
Ela se sentou. Pediu outro
whisky.
O pianista mudava de tom como quem muda de assunto.
— Então, o que é que não
quer sentir hoje? — perguntou Julián.
— Tudo. Principalmente o que insiste em não morrer.
— O afeto?
— A ressaca.
Ele sorriu.
— São parecidos.
— Só um deixa gosto de cinza.
Ficaram em silêncio.
O bar parecia suspenso no tempo — apenas o barulho dos copos, o som abafado de
uma risada distante, o tilintar das moedas sobre o balcão.
— Lembra da última vez? —
perguntou ele.
— Lembro que me cansei de saber demais.
— E agora?
— Agora só me canso de sentir o que já não existe.
Julián assentiu, sem
ironia.
— Eu também.
Ela o olhou pela primeira
vez sem escudo.
— É raro te ouvir dizer algo que não machuca.
— Talvez eu tenha desaprendido a ferir.
— Ou apenas a insistir.
Ele levantou o copo.
— Um brinde, então.
— Ao quê?
— Àquilo que não se esquece, mesmo quando não se quer lembrar.
Os copos se tocaram com um
som pequeno e definitivo, como se selassem um pacto sem testemunhas.
O whisky queimou por dentro, mas de um jeito suportável.
Beatriz levantou-se.
— Preciso ir.
— Sozinha?
— Sempre. É assim que se sobrevive a certas verdades.
Ela saiu sem olhar para
trás.
Lá fora, a rua exalava chuva e luzes cansadas.
Julián permaneceu no bar,
girando o gelo no fundo do copo, até que derretesse.
Depois disse, baixinho, só para si:
— Há coisas que não queremos saber. E outras que fingimos não sentir.
O pianista recomeçou a
tocar, e o bar voltou à sua rotina de fantasmas elegantes.
Parte Três: As Coisas que
Não Quero Dizer
(Onde o Silêncio Já Diz Por
Si)
O dia amanhecia em tons
pálidos, como um segredo mal revelado.
Beatriz caminhava pela cidade ainda úmida da noite anterior.
As ruas tinham o cheiro agridoce do que já aconteceu e não volta mais.
Ela não sabia bem por que
estava ali — talvez o acaso, talvez o hábito.
Afinal, o acaso é só o nome educado que damos às repetições.
O café ainda estava
abrindo. Mesas vazias, o rangido do balcão, o som distante de uma vassoura
riscando a calçada.
E ele — claro.
Julián, sentado no mesmo canto, lendo um jornal de três dias atrás, como quem
revisita um passado que insiste em não melhorar com o tempo.
— Cedo demais pra ti —
disse ela, pousando a bolsa.
— A insônia é um vício disciplinado.
— E a nostalgia, uma ressaca sem hora pra acabar.
Ele sorriu, discreto.
— Achei que não voltaria a me falar.
— Eu também achei.
— E o que mudou?
— O café daqui. É menos amargo que a lembrança.
Beatriz pediu um espresso e
ficou mexendo a colher, distraída.
O sol tentava atravessar a vidraça, mas parecia desistir antes de conseguir.
— Sabe, Julián — começou
ela, sem olhar —, há dias em que acordo pensando em te dizer algo.
— Então diga.
— Já esqueci o quê.
— Isso acontece quando se lembra com o estômago.
Ela riu, seca, elegante.
— Você continua dizendo demais.
— E você, de menos.
— Talvez o segredo seja esse: ninguém aprende a calar no mesmo ritmo em que
aprende a sentir.
Ele deixou o jornal de
lado, finalmente encarando-a.
— E o que é que não quer dizer hoje?
Beatriz demorou um pouco antes de responder.
— Que às vezes sinto falta.
— De mim?
— De alguém que me desafiasse sem me ferir.
— Isso foi um elogio?
— Foi um epitáfio.
O garçom trouxe o café. O
cheiro subiu, denso, quente.
Beatriz tomou um gole e pousou a xícara como quem encerra um parágrafo.
— E você, Julián? —
perguntou, quase em tom neutro. — O que não quer dizer?
Ele hesitou.
— Que me acostumei ao teu silêncio. E que talvez seja a única companhia que
entendo.
Ela levantou o olhar, e por
um breve instante, o ar pareceu menos pesado.
Não houve sorriso, nem mágoa. Apenas o reconhecimento de algo que nunca chegou
a se encaixar, mas também nunca se desfez.
Beatriz pagou a conta.
— Então é isso.
— É.
— Nenhum drama, nenhuma promessa.
— Nenhuma necessidade.
Ela ajeitou o casaco.
— Adeus, Julián.
— Até o esquecimento, Beatriz.
Saiu.
O sol finalmente atravessou o vidro, iluminando o jornal esquecido sobre a
mesa.
A manchete falava de algo que já não importava.
Julián dobrou o papel, olhou a cadeira vazia à frente e murmurou:
— Há coisas que não quero
saber, outras que não quero sentir...
Fez uma pausa curta.
— ...e as que não quero dizer, por medo de que virem verdade.
Lá fora, Beatriz acendia um
cigarro sob a luz fria da manhã.
O dia começava, e ambos sabiam — sem precisar nomear —
que o silêncio entre eles era o que restava de mais sincero.
Silvia Marchiori Buss
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