Trilogia : A Moça de Outra Galáxia

Parte I — A Chegada

 Dizem que ela chegou numa noite em que o céu esqueceu de apagar as estrelas.

Desceu como quem já sabia o caminho — um fio de luz, uma sombra curva, um corpo em desacordo com a gravidade. Ninguém viu direito, mas todos sentiram um arrepio leve, como se o ar tivesse mudado de densidade.

Na manhã seguinte, ela apareceu no café da esquina, pedindo uma xícara de silêncio e um pão que não existia no cardápio. O garçom, meio confuso, trouxe-lhe um croissant. Ela olhou para o prato como quem observa um mapa antigo. Tocou o pão, desfez o formato e sussurrou algo que fez o garçom esquecer o próprio nome por um instante.

Os dias passaram e ninguém sabia de onde ela vinha. Só que falava pouco, mas quando falava, o tempo parava. As palavras dela não saíam: aconteciam.
Diziam que morava num pequeno quarto de hotel, de cortinas brancas que flutuavam mesmo sem vento. À noite, a janela dela era a mais iluminada — não por lâmpada, mas por uma espécie de respiração dourada.

Alguns juravam que ela não dormia. Outros diziam que sonhava com planetas distantes e que os sonhos vazavam pelas frestas da janela. O gato da vizinha miava para o teto, e o relógio da cidade adiantava segundos toda vez que ela sorria.

Chamavam-na de a moça de uma outra galáxia, porque nada nela obedecia às leis conhecidas.
Nem o tempo, nem o amor, nem a distância.

Houve quem tentasse segui-la — um poeta, um menino, um velho. Nenhum voltou igual.
O poeta perdeu as palavras.
O menino aprendeu a chorar.
E o velho, que já não acreditava em nada, começou a plantar flores em latas de conserva.

Ela ficava no café até o entardecer, olhando o reflexo do sol no vidro, como se procurasse o caminho de volta. Às vezes, deixava moedas que ninguém reconhecia: redondas, leves, com pequenos sóis gravados.

Um dia, desapareceu — assim como chegou.
Sem barulho, sem aviso.
Só uma cadeira vazia, um perfume de luar e um bilhete dobrado em quatro sobre o balcão.

No papel, uma frase escrita em letras que pareciam pulsar:

“Volto quando o céu lembrar de sonhar.”

Desde então, toda vez que o céu de madrugada parece mais vivo que o normal, alguém jura ter visto uma mulher de passos lentos, envolta em luz, atravessando a rua principal — procurando, talvez, um café que sirva silêncio.

 

 Parte II — O Garçom

 O garçom chamava-se Ernesto, mas ninguém mais o chamava assim.

No Café Orion, todos o conheciam apenas como “o rapaz do balcão”, embora ele já tivesse rugas nos olhos e cabelos cansados de vapor e madrugada.

Desde o dia em que a moça apareceu, algo nele se partiu — ou se abriu.
Era difícil dizer.

No início, achou que fosse uma cliente como qualquer outra. Mas quando ela pediu “uma xícara de silêncio e um pão que não existe mais”, entendeu que o mundo, por um instante, mudara de órbita.

Ela voltava todos os dias, sentava-se na mesma mesa, olhava para a janela e falava quase nada.
E, mesmo assim, o café parecia cheio de som — o som de tudo o que não precisava ser dito.

Os fregueses comentavam, cada um descrevendo uma mulher diferente.
Para alguns, era loira. Para outros, morena. Para um velho cético, nem sombra ela tinha.
Ernesto, no entanto, via o mesmo rosto, o mesmo olhar de estrela distraída, a mesma presença que alterava o ritmo do relógio.

Certa noite, quando fechou o caixa, encontrou moedas que não reconhecia.
Eram lisas e brilhantes, com pequenas constelações gravadas em relevo.
Guardou uma delas na gaveta — talvez por medo de esquecê-la, talvez por esperança de revê-la.

No dia seguinte, ela não voltou.
Nem no outro.
Nem nunca mais.

Com o tempo, os fregueses deixaram de falar nela, e o Café Orion perdeu o brilho.
Mas o relógio atrás do balcão seguia adiantando segundos sozinho, como se o tempo ainda esperasse por alguém.

Ernesto envelheceu devagar, sem coragem de mudar de trabalho.
Ficou ali, servindo cafés mornos e memórias quentes, como se esperasse um retorno que só ele acreditava possível.
Às vezes, olhava para a moeda guardada e jurava ver nela um reflexo que pulsava — como se um pequeno coração batesse no metal.

E nessas horas, o ar do café voltava a ter cheiro de luar.

 

Parte III — O Reencontro

 O Café Orion fechou.

O letreiro, desbotado e meio torto, ainda resistia sobre a porta.
Ernesto, agora velho, ajudava a arrumar o brechó que tomara o lugar do balcão onde, um dia, ela costumava se sentar.
Trabalhava em silêncio, como quem permanece por lealdade a algo invisível.

Numa noite de novembro, o céu pareceu se abrir como uma ferida de luz.
As estrelas estavam tão próximas que pareciam querer conversar.
O vento soprou do nada, e a porta do antigo café se abriu sem que ninguém a empurrasse.

Lá estava ela.

A mesma.
Sem idade, sem peso, sem tempo.
O olhar ainda cheio de constelações adormecidas.

Ernesto a reconheceu antes de entender.
E entendeu antes de acreditar.

Ela sorriu, e o relógio do brechó parou.
Disse apenas:
— Guardei teu tempo comigo.

Deu um passo, estendeu-lhe a mão.
E o chão, feito de pó e lembranças, começou a brilhar.

Os objetos do brechó — espelhos, xícaras, relógios quebrados — começaram a levitar suavemente, como se recordassem o passado.
Ela o olhou com uma ternura que dissolvia a distância entre mundos.

— Está pronto? — perguntou.
Ele não respondeu. Apenas assentiu.

A moça tocou o pulso dele.
E no instante seguinte, o ar se tornou leve. O tempo, elástico. O corpo, transparente.

Cruzaram a cidade que dormia.
Acima, o céu se abria em espirais luminosas.
Passaram por nuvens, por mares suspensos, por lugares que não se explicam.

E lá, entre planetas que respiravam e estrelas que se moviam como pássaros, ela disse:
— Aqui, ninguém envelhece. Só floresce.

Dizem que, desde aquela noite, uma nova estrela surgiu no céu, bem acima da esquina onde ficava o Orion.
Brilha diferente.
Pisca em ritmo de coração.

E, se alguém se aproxima do antigo brechó e fica em silêncio o bastante, jura ouvir um murmúrio vindo do nada:

“O café está pronto.”

 

Epílogo — A Luz na Esquina

 Numa tarde de inverno, um viajante chegou à cidade.

Não vinha a passeio, nem a trabalho — vinha porque algo o chamava, embora ele não soubesse o quê.

Andava sem rumo, até que uma esquina o deteve.
Ali, um prédio antigo, meio esquecido, guardava um nome quase apagado: Orion.
As letras, corroídas pelo tempo, ainda brilhavam sob o último raio de sol.

Curioso, o homem encostou o rosto no vidro empoeirado.
Lá dentro, apenas sombras e o eco de um passado que se recusava a morrer.
Mas no ar havia um cheiro doce, quase lunar — algo entre café fresco e chuva nas folhas.

Então ele viu.
No reflexo do vidro, duas silhuetas: um homem e uma mulher.
Sentados frente a frente, riam sem som, como se o próprio silêncio os servisse.
Um vapor prateado subia da mesa, e por um instante o viajante jurou ouvir o tilintar de uma colher invisível.

Piscou.
As figuras sumiram.
Mas o cheiro permaneceu.

No chão, bem diante da porta, uma pequena moeda reluzia.
Redonda, leve, com um sol gravado no centro.
Quando ele a pegou, sentiu um calor leve, e um lampejo cruzou o céu — uma estrela cadente que riscou o ar e se apagou atrás dos prédios.

O viajante ficou imóvel, olhando o céu que escurecia devagar.
Depois sorriu, guardou a moeda no bolso e murmurou sem saber por quê:

“O café está pronto.”

E seguiu seu caminho.
Atrás dele, o letreiro do Orion brilhou por um segundo —
como se piscasse um adeus.

 Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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