Três Noites e Nenhuma Lua
A primeira noite veio como uma visita antiga.
Não pediu licença.
Entrou devagar, cheirando a chuva e ao tempo que não passou.
O relógio batia dentro
dela.
Não nas paredes.
Dentro.
Como se cada segundo fosse um passo que alguém esqueceu de dar.
Lembrou-se do rosto que não
lembrava mais.
Do riso que ficou preso na garganta de um dia que já não existe.
De tudo o que continua acontecendo — mesmo depois de acabar.
Nenhuma lua. Nenhuma forma. Nenhum contorno de si.
Pensou em tudo o que
sobrevive por teimosia:
os gestos, os cheiros, as vozes que não querem ir embora.
Pensou que talvez ela também fosse uma dessas coisas que insistem.
Um resto de alguém que ainda respira por engano.
Grossa, cansada, antiga.
Caía como lembrança — gota por gota, até o pensamento afogar.
Nenhum luar.
E a chuva apertava,
a cada noite sem lua,
trazendo lembranças que apertavam o seu coração machucado.
Pensou nos dias em que
fingiu estar bem.
Nos corpos que encostaram no seu sem vê-la.
Na coragem disfarçada de rotina.
No amor que ficou preso na roupa de cama,
no cheiro que o tempo ainda não teve coragem de apagar.
Ela encostou o ouvido e ouviu — do outro lado — o som de sua própria ausência.
Não quis abrir a janela.
Sabia que não haveria lua.
Sabia que o escuro é mais fiel que qualquer lembrança.
Três noites e nenhuma lua.
E ainda assim, o coração batia —
como quem insiste em permanecer aceso
num lugar que já não tem mais luz.
Silvia Marchiori Buss
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