Quando o Querer Já Não Te Pertence
Adélia sempre teve desejos miúdos e grandiosos, desses que se confundem com a respiração.
Quis um corpo que coubesse nela sem sobras nem culpas.
Quis uma voz que não tremesse nas despedidas.
Quis um amor com café na cama e tardes sem pressa — o tipo de amor que sabe
esperar o outro atravessar os silêncios.
Quis também que o tempo fosse gentil: que as rugas chegassem em paz, que a
morte viesse só quando tudo estivesse dito.
E, sobretudo, quis continuar querendo, como quem se recusa a ser pedra.
Mas a vida, com sua ironia
líquida, foi lhe ensinando outra língua.
Nada contra os sonhos — dizia o vento, zombando. — É que há vontades maiores
orbitando o que imaginas.
E, pouco a pouco, o mundo começou a mover-se sem pedir licença.
O filho partiu para longe.
O amor envelheceu e desaprendeu o espanto.
O espelho devolveu uma mulher que ela não reconhecia inteiramente.
E Adélia, que antes tentava segurar o curso das coisas com as unhas, foi
soltando os dedos, um a um, até descobrir que também as correntes têm descanso
quando chegam ao mar.
Não houve revelação. Nenhum
clarão.
Apenas um sossego estranho, como se dentro dela algo tivesse finalmente
entendido o idioma do mundo.
O querer é um sopro, mas o universo sopra mais forte.
Há um pulsar que conduz o invisível, uma vibração antiga que escolhe o momento
da flor abrir e da estrela morrer.
E é inútil querer quando o cosmos já decidiu.
Desde então, Adélia vive
como quem escuta o rumor do mundo por dentro.
Aceita o inacabado, o que ficou pela metade, o que não veio.
Entende que certos amores só existem para ensinar a partir.
E que há beleza até nos desejos que se dissolvem antes de nascer.
Numa noite fria, Adélia
acendeu uma vela diante do espelho.
A chama tremia como se respirasse.
Por um instante, ela se viu multiplicada em reflexos — a menina de vestido
branco, a mulher cansada, a velha que viria — todas coexistindo num mesmo
sopro.
Sorriu, e o espelho devolveu o gesto com uma ternura antiga.
Depois, apagou a vela com
um sopro lento.
A fumaça subiu, dançou, e se perdeu.
Ficou apenas o escuro —
e dentro dele, um silêncio que parecia compreender tudo.
Silvia Marchiori Buss
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