Quando as Montanhas se Fundem com as Nuvens

Ela caminhava distraída pelas trilhas úmidas que subiam em direção às montanhas. O chão coberto de musgo respirava sob seus passos, e o ar frio, fino, parecia murmurar lembranças. As nuvens, em dias assim, desciam preguiçosas e se aninhavam entre as pedras — confundindo o alto e o baixo, o céu e a terra.

Naquele vilarejo medieval, o tempo não passava: arrastava-se. As casas de pedra guardavam ecos de vozes antigas, e as janelas pareciam espiar cada movimento dela. Ali nascera, crescera, amara e envelhecera — como se toda a sua história tivesse sido escrita na encosta das montanhas.

Fora professora a vida toda. Tinha nas mãos o gesto exato de quem aponta caminhos, mas na alma o cansaço de quem não encontrou o próprio. Criou dois filhos que agora viviam longe, em países onde as nuvens têm outro idioma. Recebia deles mensagens breves, cheias de pressa e boas intenções. “Está tudo bem, mãe?” — e ela respondia sempre o mesmo: “Sim, está tudo bem.”
Mas não estava.

O marido — aquele com quem compartilhara o mesmo teto, as mesmas rotinas, o mesmo silêncio de muitos anos — havia se apagado dela aos poucos. Não por morte, mas por ausência. Primeiro os olhares, depois as conversas, até que um dia ele simplesmente não estava mais ali, embora o corpo ainda ocupasse a cadeira à mesa. Quando enfim ele partiu de verdade, o luto já morava nela havia tempo demais.

Desde então, caminhava todas as manhãs pelas montanhas. Dizia a si mesma que era por saúde, mas no fundo buscava algo que nem sabia nomear. Às vezes, parava e olhava para o vale — aquele mesmo onde brincara quando menina — e tinha a sensação de que o mundo inteiro se movia menos que seu coração.

Naquele dia, o vento soprava de um jeito diferente. O céu parecia ter descido até o chão, e as nuvens se misturavam às pedras. Ela continuou subindo, os cabelos molhados, as mãos frias, o corpo leve.
De repente, percebeu que não sentia mais o peso dos passos.
Nem o som deles.

As montanhas já não estavam abaixo dela, mas ao redor — ou dentro. O ar era tão denso que parecia feito de memória. As nuvens, tão próximas, tocavam seu rosto com uma ternura que há muito tempo não sentia.

Por um instante — ou talvez para sempre — ela não soube mais onde terminava a terra e começava o céu.
Nem onde terminava ela.

Apenas caminhou, leve, sem rumo e sem pressa, como quem enfim encontra o lugar onde o corpo se desfaz, mas a alma continua andando.

E lá embaixo, o vilarejo seguia igual: o sino marcando as horas, as crianças correndo entre as casas, o vento batendo nas janelas.
Ninguém percebeu que, naquele instante,
as montanhas se fundiram com as nuvens.
E ela, com ambas.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 


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