O Tempo Entre Dois Toques

 A cidade parecia conter a própria respiração quando o grito da Catedral cortou o ar. Dez vezes, o som metálico se espalhou sobre Lausanne — dez chamadas da noite, vinte e duas horas em exatidão suíça.

O casal parou. Não era susto, era reverência.
O som vinha das alturas e se deitava sobre os telhados, atravessando as colinas, escorrendo pelas ruelas onde o vento costuma demorar. Um som de séculos, talvez o mesmo que já acordou reis, monges, soldados, amores esquecidos.

Lá embaixo, na praça principal, o outro relógio — o da fonte que conta a história da cidade — marcava as mesmas horas com orgulho. Cada figura de cobre parecia sustentar o peso do tempo com uma paciência antiga, como se dissesse: “Aqui o tempo tem raízes.”

Durante o dia, aquela mesma praça se transforma em outro tipo de milagre. Às quartas e aos sábados, quando o sol ainda hesita sobre o Léman, as barracas da feira ocupam o espaço entre vitrines de luxo.
Louis Vuitton de um lado, Hermès do outro — e, entre elas, homens e mulheres que vendem o que a terra ainda oferece sem pressa: queijos de montanha, maçãs colhidas na véspera, mel de abelhas conhecidas pelo nome, flores que nascem em quintais onde o relógio não manda.

O casal caminha devagar.
Há um contraste tão forte que parece sagrado: o luxo mundial e a simplicidade doméstica respirando o mesmo ar.
Os feirantes sorriem, trocam receitas, contam o tempo pelo amadurecer das frutas. As mãos enrugadas pesam legumes com precisão instintiva — outro tipo de exatidão, nascida não da máquina, mas da experiência.

Enquanto isso, a cidade segue seu compasso perfeito. Os ônibus chegam na hora, as lojas se fecham no minuto, o relógio da Catedral prepara sua próxima canção.
Mas há um instante — aquele exato segundo entre o último toque do sino e o silêncio que o engole — em que tudo parece suspenso, como se Lausanne se lembrasse, por um breve respiro, de que o tempo também sabe ser humano.

O casal permanece parado, ouvindo o eco que se desfaz nas ladeiras. O vento do lago sobe, trazendo um frio delicado e o perfume distante de pão recém-assado. As luzes da cidade tremem sobre os paralelepípedos molhados, e cada janela acesa parece guardar uma história.

A mulher ajeita o cachecol, o homem segura sua mão — e, por um instante, caminham sem destino. O relógio da fonte ainda brilha na esquina, teimoso em marcar os minutos, mas eles já não o escutam.
Descem em direção ao lago. O som do sino se dissolve no ar, misturando-se ao murmúrio da água e ao ranger leve dos barcos adormecidos. As luzes do Léman desenham fios dourados sobre a superfície escura, como se o tempo — cansado de tanta precisão — decidisse, enfim, flutuar.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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