O Que Ela Temia, Aconteceu
Quando era criança, ela já sentia um medo que não sabia nomear. Não era medo do escuro, nem de monstros, nem de trovões — esses, ela enfrentava com cobertor e reza. O medo dela era outro, mais fundo, mais antigo, como uma coisa viva que morava debaixo do peito e acordava sem motivo. Às vezes vinha quando todos dormiam, e o silêncio da casa parecia grande demais. Outras, no meio da tarde, quando o sol se punha oblíquo na parede e ela via o pó dançando no ar — aquele instante em que o dia parece parar antes de virar noite. Era sempre ali que o medo aparecia: no intervalo.
Cresceu tentando disfarçar.
Aprendeu a sorrir, a ocupar os dias, a estudar, a ser útil. Tornou-se mulher,
mãe, alguém de voz firme e passos controlados. Mas o medo continuava à
espreita, mudando de forma. Às vezes parecia um pressentimento, outras um desconforto
sem causa. Ela o sentia nas manhãs sem razão para levantar-se, nas conversas em
que já não sabia o que dizer, no olhar que fugia do espelho. Nunca entendeu bem
o que temia — talvez o nada, talvez o tudo. Só sabia que era algo prestes a
acontecer, como uma onda parada no tempo.
E então, um dia qualquer, o
que ela temia aconteceu.
Não foi tragédia, não foi
perda, não foi notícia. Foi só um instante em que o ar parou. Acordou e sentiu
o mundo ligeiramente fora do lugar. O café tinha o mesmo cheiro, mas não o
mesmo gosto. As mãos tremiam sem motivo, o chão parecia longe. Tudo seguia
igual, mas nada respondia por dentro. A alma — se é que ainda estava ali —
parecia um fio solto, incapaz de sustentar o corpo.
Tentou entender, mas não
havia explicação. O medo que sempre a acompanhara agora tinha tomado forma: era
isso, a sensação de existir sem se sentir viva. Um desencaixe profundo, uma
vertigem sem queda. Ela se moveu, falou, fez o que se faz. Mas dentro dela o
tempo tinha parado, e tudo o que antes pulsava se tornara ruído distante.
Lembrou-se da infância, da
menina que observava o pó na luz do fim da tarde. Era o mesmo silêncio, a mesma
suspensão entre um antes e um depois. Só que agora não havia como fugir para o
colo de ninguém. O medo havia crescido com ela — paciente, preciso — esperando
o momento exato para se revelar.
O que ela temia, aconteceu.
E não havia dor visível, nem drama. Apenas a constatação fria de que a vida
podia continuar sem ela dentro.
Seguiu o dia como pôde.
Lavou a louça, respondeu mensagens, sorriu o bastante para não levantar
suspeitas. Mas sabia — sabia como quem reconhece uma velha sombra — que o medo
tinha vencido. Não em forma de castigo, nem de tragédia, mas como uma verdade inevitável.
Aquilo que ela sempre pressentira, desde criança, tinha enfim se cumprido.
E o mais cruel era isso: o
mundo continuava igual.
Silvia Marchiori Buss
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