O Mundo do Faz de Conta

Naquela manhã, o céu acordou torto.

As nuvens se confundiam com as cortinas, e o vento vinha de dentro da casa, arrastando cheiros antigos de bolo e tristeza.
Foi quando ela percebeu que o real começava a se desmanchar pelas bordas — como uma fotografia esquecida ao sol.

A colher flutuava no café e fazia círculos lentos, como se mexesse o tempo.
A toalha respirava.
O relógio, cansado de fingir pontualidade, começou a andar para trás, devolvendo-lhe segundos que já haviam morrido.
Ela não se assustou. Apenas ajeitou o cabelo, olhou para o nada com ternura e murmurou:
— Enfim.

O chão se arqueou, como um gato sonolento.
As paredes se afastaram, libertando o ar de dentro das palavras.
E o mundo do faz de conta se abriu — não em portais nem feitiços, mas num leve estremecer de realidade, uma dobra delicada entre o que é e o que se imagina.

Ali, a poeira tinha memória.
Cada partícula lembrava uma conversa antiga, um beijo interrompido, uma infância que ainda brincava nas quinas do armário.
O vento tinha voz feminina e soprava canções de despedida nas vidraças.
As sombras dançavam devagar, respeitando o silêncio dos móveis.

Tudo era o mesmo — e nada era igual.

As lágrimas, quando vinham, viravam pequenas pedras translúcidas e rolavam até o quintal, onde nasciam flores de vidro.
As saudades ganhavam asas, e às vezes pousavam no ombro dela, pedindo um pouco de companhia antes de voar de novo.
Os espelhos mentiam com elegância — mostravam-na sorrindo quando o coração doía, e trincavam em segredo quando ela lembrava demais.

Ela aprendeu a conversar com as coisas que o mundo real ignorava:
o som que o pão faz ao esfriar,
a pausa que o vento faz antes de mudar de direção,
a respiração de uma carta ainda não escrita.

Às vezes, o carteiro da razão batia à porta, trazendo recados do mundo de lá.
“Volte”, dizia a carta. “Aqui faz falta o seu nome nos registros.”
Ela sorria, como quem escuta um idioma esquecido, e respondia:
— Aqui, o nome é vento. E o vento não assina papéis.

Então, queimava a carta com uma chama azul que saía dos próprios dedos — não fogo, mas lembrança.
E as cinzas dançavam até o teto, transformando-se em pequenos vaga-lumes.
Dizem que essas luzes viajam até o mundo real, pousam nos ombros dos distraídos e fazem com que, por um instante, eles também sonhem acordados.

No mundo do faz de conta, ela continua viva —
costurando o invisível com linhas de vento,
bebendo madrugadas em xícaras de névoa,
ouvindo o tic-tac dos silêncios,
soprando amor nas frestas do impossível.

E quem a encontra — seja em sonho, memória ou acaso —
nunca volta inteiro.
Porque o faz de conta, quando vira morada, leva um pedaço de quem ousa olhar demais.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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