O Menino Selvagem, A Menina Domesticada e Selvagem e Domesticada
1 - O Menino Selvagem
Silvia Marchiori Buss
2 - A Menina Domesticada
Silvia Marchiori Buss
Enquanto isso, do outro
lado da mesma rede, nasceu uma menina que aprendeu cedo a sorrir para o
reflexo. Desde pequena, ensinada a existir para a câmera, a escolher o filtro
antes da emoção. Chamaram-na de linda, fofa, perfeita. A cada curtida, um pouco
mais domesticada. Cresceu com medo de errar o ângulo e de ser esquecida por
vinte e quatro horas. Quando chorava, diziam: “Apaga isso.” Quando ria demais,
pediam: “Faz de novo, com luz.” Aprendeu que a felicidade é um enquadramento, e
o amor, um emoji. À noite, quando o quarto ficava escuro e o brilho do celular
era o único rosto que a olhava, sentia um vazio que não cabia nas telas. Um
dia, tropeçou em um vídeo antigo do menino selvagem — aquele olhar de bicho,
aquela verdade sem pose — e ficou em silêncio. Algo nela se mexeu. Tentou fazer
o mesmo: apagou os aplicativos, saiu de casa, respirou o vento cru da rua. Mas
o barulho da vida sem fones a assustou. Voltou correndo, reconectou tudo, e
fingiu normalidade. Só que o incômodo ficou. Começou então a postar sem nome,
sem rosto, sem legenda. Um perfil anônimo com imagens simples: uma folha caída,
uma poça, um cão dormindo. Quase ninguém viu. Mas ela sentiu. Pela primeira
vez, era dona do próprio olhar.
Certa noite, sonhou com o
menino selvagem. Ele andava entre árvores que pareciam pulsar, e cada passo
deixava um rastro de luz. Quando ela tentou alcançá-lo, ele virou o rosto e
disse: “Você ainda não desaprendeu.” Ela acordou com os olhos molhados e uma
certeza muda: não queria mais caber. No dia seguinte, não postou nada. Nem
story, nem foto, nem frase. Apenas viveu. O mundo não notou sua ausência, mas o
algoritmo sim — ficou inquieto, como um bicho sem dono. Talvez o menino e a
menina nunca tenham se encontrado. Ou talvez se encontrem agora, toda vez que
alguém desliga o celular e respira o ar de verdade, mesmo que por um instante.
Porque há um momento — breve, quase invisível — em que o humano se lembra de
si. E nesse momento, o selvagem vence.
Depois que o menino sumiu
de vez e a menina aprendeu o silêncio, o mundo continuou girando — barulhento,
veloz, distraído. As pessoas voltaram às suas timelines, aos seus slogans de
leveza, aos filtros de sempre. Mas, entre uma rolagem e outra, algo se perdeu
no fundo dos olhos. Um tipo de saudade sem nome, uma inquietação que ninguém
sabia traduzir. Talvez fosse o eco deles, o menino e a menina, que haviam
deixado rastros invisíveis dentro das máquinas. A menina, agora mais mulher,
continuava vivendo entre dois mundos. No trabalho, tudo era eficiência e
presença digital. Em casa, o celular dormia virado para baixo, como se ela o
castigasse. Ainda postava às vezes, mas nunca sobre si — apenas fragmentos: um
gato no telhado, uma nuvem que parecia barco, um rosto anônimo refletido na
vitrine. Não buscava mais aplauso, apenas vestígios. E quando alguém comentava
“que poético”, ela sorria sem responder, porque sabia que poesia é o que
acontece fora das palavras.
Certa manhã, ao atravessar
uma rua estreita, viu um cartaz colado num muro úmido: uma foto antiga, em
preto e branco, de um menino com folhas nos cabelos. Abaixo, uma frase escrita
à mão: “Vocês me perderam quando tentaram me seguir.” Parou. O coração
acelerou, não por saudade, mas por reconhecimento. Era como se aquele olhar
estivesse vivo dentro dela, ainda chamando. Voltou para casa com uma ideia
impossível: encontrá-lo. Não nas redes, não nos vídeos, mas em algum lugar
real. Começou a caminhar pelos parques, pelas margens do lago, pelos lugares
onde o som do vento ainda existia. Andava horas sem música, sem destino, apenas
ouvindo os próprios passos. Descobriu que havia vida em cada ruído esquecido.
Às vezes pensava em desistir — até que, numa tarde de neblina, ouviu um som
vindo do mato: um estalo, um sopro, um quase-riso. Aproximou-se. Não havia
ninguém. Mas no chão, sobre a terra úmida, encontrou uma pequena tela rachada —
antiga, coberta de musgo. Ligou. Nada. O aparelho morto refletia apenas o rosto
dela, manchado de chuva. E nesse reflexo, por um segundo, jurou ver um outro
olhar ao fundo — selvagem e calmo.
Não soube se foi lembrança,
alucinação ou encontro. Apenas entendeu. O menino não era uma pessoa. Era o
nome que a liberdade ganha quando alguém se desliga do olhar alheio. Era o
estado anterior à domesticação. E ela, agora, percebia que o carregava dentro
de si desde o primeiro like. Voltou para casa devagar, sem pressa. Não contou a
ninguém. No dia seguinte, o perfil dela desapareceu — não por decisão, mas
porque simplesmente não fazia mais sentido. Quem a procurou encontrou apenas
uma frase na bio: “Há vida fora da moldura.” Desde então, contam que às
vezes, quando o wi-fi cai e o silêncio invade a sala, uma imagem antiga
reaparece em certas telas: uma menina caminhando entre árvores, e um menino
olhando o horizonte. Nenhum fala. Nenhum precisa. É só o mundo tentando lembrar
que ainda há respiro, mesmo dentro das máquinas.
Dizem que, em algum ponto
invisível da rede, há um espaço que não pertence a ninguém. Nem à empresa, nem
ao algoritmo, nem ao fluxo incessante de dados. Um lugar fora do alcance dos
dedos, onde o tempo não corre e o sinal não chega. É ali que alguns juram ouvir
o eco de dois respiros — o do menino selvagem e o da menina domesticada.
Ninguém sabe se ainda têm forma, se andam, se envelhecem. Há quem diga que
viraram código, pulsando entre os zeros e uns que sustentam o mundo digital.
Outros acreditam que se dissolveram, e agora vivem dentro de quem ousa se
desconectar por um instante. Às vezes, quando o aparelho trava e a tela
escurece, há quem veja um brilho breve, quase imperceptível, refletido no
vidro. É o olhar dele. Logo depois, o reflexo de um rosto sereno, quase
sorrindo. É o dela.
Não dizem nada. Não
precisam. Apenas lembram — com sua presença muda — que não há cura para a
ausência de si, e que ninguém é livre enquanto vive apenas no reflexo. O vento
sopra pelas janelas abertas, o sol toca o chão dos quartos, e em cada
respiração humana, por mais distraída que seja, há um fragmento deles dois.
Selvagem e Domesticada. O que fomos e o que ainda podemos ser, se um dia
tivermos coragem de desligar a tela e encarar o espelho sem medo.
Silvia Marchiori Buss
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