O Menino Selvagem, A Menina Domesticada e Selvagem e Domesticada

 

1 - O Menino Selvagem

 Ele apareceu no meio do nada, que hoje é o mesmo que dizer: apareceu no meio da internet. Um vídeo curto, tremido, sem música, sem legenda. Um menino de olhos quase ferais, sentado entre árvores que pareciam de verdade demais para um filtro. Ninguém sabia se era um jogo, uma denúncia, um delírio. Chamaram-no de o menino selvagem. Em poucas horas, ele já era remixado, copiado, estudado. Havia quem dissesse que era um órfão, um fugitivo, um ator. Outros juravam que o vídeo tinha algo de sagrado, como se fosse uma lembrança de um tempo anterior às senhas. O menino não falava, mas olhava. E esse olhar atravessava a tela como se reconhecesse quem o via — não por nome ou perfil, mas pela fome de pertencimento que cada um escondia atrás de seus avatares. De repente, todos queriam ser selvagens também. Correram para o mato, improvisaram cabanas no quintal, desligaram o wi-fi por doze horas e postaram fotos disso, dizendo que estavam “em reconexão”. O paradoxo passou despercebido: buscavam o silêncio, mas precisavam exibi-lo. As redes ficaram cheias de gente fingindo o que ele parecia ser sem esforço — real. Depois, o menino sumiu. E foi aí que começou a verdadeira obsessão. Procuraram seu IP, o local do vídeo, a origem da conta. Nada. Um vazio digital, uma ausência que alimentava teorias. Alguns afirmaram que era um experimento social, outros, que o menino tinha sido “absorvido” pelo algoritmo, virado um fantasma binário. O sumiço virou moda também: perfis apagados, despedidas poéticas, anúncios de detox. A cada ausência performática, alguém lembrava dele. O menino selvagem. Até que, meses depois, um novo vídeo apareceu. Curtíssimo. O mesmo rosto, agora mais velho, o mesmo olhar, mas por trás dele — uma parede branca, uma tomada, um copo com caneta dentro. Ele falava, pela primeira vez: “Vocês me perderam quando tentaram me seguir.” E desligou. A conta sumiu logo depois, mas a frase ficou vagando pelas redes, impressa em camisetas, em memes, em slogans espirituais de gurus digitais. Ninguém percebeu que ele tinha deixado o último aviso: a selva não estava do lado de fora, estava dentro. E era ali que todos tinham medo de entrar. Desde então, há quem diga que o menino selvagem ainda aparece, de vez em quando, em telas trincadas, em vídeos que travam, em sinais fracos de conexão. Dizem que é só um bug. Outros juram que é o eco de alguém que tentou nos ensinar que viver é perigoso demais para caber num story de quinze segundos.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

2 - A Menina Domesticada    

 Ela nasceu no coração da tela. Ninguém a viu suja, descabelada, descalça. Desde o primeiro post, já vinha filtrada, enquadrada, pronta para caber. Chamaram-na de linda, fofa, perfeita. A cada curtida, o mundo aplaudia um pouco mais a sua obediência. Aprendeu cedo que o amor moderno tem o formato de um coração vermelho. Quando chorava, alguém dizia: “Apaga isso, fica feio.” Quando ria de verdade, sem ângulo, alguém repetia: “Faz de novo, agora com luz natural.” Cresceu assim, domesticada pelo olhar alheio, alimentada por elogios que não tinham voz nem rosto. Aos doze anos, já sabia o tom certo para parecer feliz. Aos quinze, já se via cansada de si. À noite, quando o quarto escurecia e o reflexo do celular era o único rosto que restava, sentia uma saudade estranha — como se faltasse algo que nunca teve. Às vezes, encontrava nas redes vídeos antigos de um menino selvagem, um olhar de bicho e mistério, um silêncio que não pedia nada. Ficava hipnotizada. Queria entender como alguém podia existir sem precisar de aprovação. Um dia tentou. Desligou o celular, apagou os aplicativos, saiu à rua sem aviso. O vento a assustou. O barulho dos pássaros pareceu alto demais. As mãos tremiam. Voltou correndo para casa e ligou tudo outra vez, como quem volta a respirar. Mas algo tinha mudado. Começou a perceber que as pessoas falavam em voz baixa, como se não quisessem se ouvir. Reparou que ninguém mais olhava o céu, só o reflexo dele nas lentes. Então ela criou um perfil falso, sem nome, sem rosto, sem nada. E começou a postar o que via: uma folha seca, uma pedra, uma poça d’água, um cachorro dormindo. Sem hashtags, sem filtros. Poucos viram. Quase ninguém curtiu. Mas ela sentiu, pela primeira vez, algo parecido com liberdade. Uma noite, sonhou com o menino selvagem. Ele passava por uma trilha e deixava pegadas de luz. Ela tentou segui-lo, mas ele virou o rosto e disse apenas: “Você ainda não desaprendeu.” Acordou chorando, e os olhos ardiam de um jeito que parecia verdade. No dia seguinte, não postou nada. Nem stories, nem texto, nem foto. Só viveu. E foi então que, pela primeira vez, o algoritmo não soube o que fazer com ela.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 3- Selvagem e Domesticada

 Ele apareceu no meio do nada, que hoje é o mesmo que dizer: apareceu no meio da internet. Um vídeo curto, sem filtro, sem legenda. Um menino de olhos quase ferais, sentado entre árvores que pareciam verdadeiras demais para um mundo de telas. Não falava, não dançava, não pedia nada. Apenas olhava — e esse olhar atravessava o vidro das máquinas como se reconhecesse quem o via, como se dissesse: há vida fora daqui. Chamaram-no de o menino selvagem. Em poucas horas, era cópia, teoria, meme, mil versões editadas de algo que ninguém compreendia. As pessoas o imitavam, fingiam o seu silêncio, montavam suas cabanas artificiais de desconexão, anunciando o retorno à natureza pelas próprias redes. Queriam a liberdade, mas precisavam exibi-la. Depois, o menino sumiu. E foi aí que começou a verdadeira febre: tentaram localizar seu IP, a origem do vídeo, o nome da floresta. Nada. Só o vazio. Um apagão de sentido que o transformou em lenda digital. Até que um dia, meses depois, ele voltou. O mesmo olhar, mas agora num quarto branco, comum, sem mistério. Disse apenas: “Vocês me perderam quando tentaram me seguir.” E desligou. A conta desapareceu logo depois, mas a frase ficou. Repetida, impressa, recortada, vazia. Ninguém percebeu que o menino não era metáfora — era aviso. Que a selva não estava fora, mas dentro, no lugar onde o silêncio ainda respira.

Enquanto isso, do outro lado da mesma rede, nasceu uma menina que aprendeu cedo a sorrir para o reflexo. Desde pequena, ensinada a existir para a câmera, a escolher o filtro antes da emoção. Chamaram-na de linda, fofa, perfeita. A cada curtida, um pouco mais domesticada. Cresceu com medo de errar o ângulo e de ser esquecida por vinte e quatro horas. Quando chorava, diziam: “Apaga isso.” Quando ria demais, pediam: “Faz de novo, com luz.” Aprendeu que a felicidade é um enquadramento, e o amor, um emoji. À noite, quando o quarto ficava escuro e o brilho do celular era o único rosto que a olhava, sentia um vazio que não cabia nas telas. Um dia, tropeçou em um vídeo antigo do menino selvagem — aquele olhar de bicho, aquela verdade sem pose — e ficou em silêncio. Algo nela se mexeu. Tentou fazer o mesmo: apagou os aplicativos, saiu de casa, respirou o vento cru da rua. Mas o barulho da vida sem fones a assustou. Voltou correndo, reconectou tudo, e fingiu normalidade. Só que o incômodo ficou. Começou então a postar sem nome, sem rosto, sem legenda. Um perfil anônimo com imagens simples: uma folha caída, uma poça, um cão dormindo. Quase ninguém viu. Mas ela sentiu. Pela primeira vez, era dona do próprio olhar.

Certa noite, sonhou com o menino selvagem. Ele andava entre árvores que pareciam pulsar, e cada passo deixava um rastro de luz. Quando ela tentou alcançá-lo, ele virou o rosto e disse: “Você ainda não desaprendeu.” Ela acordou com os olhos molhados e uma certeza muda: não queria mais caber. No dia seguinte, não postou nada. Nem story, nem foto, nem frase. Apenas viveu. O mundo não notou sua ausência, mas o algoritmo sim — ficou inquieto, como um bicho sem dono. Talvez o menino e a menina nunca tenham se encontrado. Ou talvez se encontrem agora, toda vez que alguém desliga o celular e respira o ar de verdade, mesmo que por um instante. Porque há um momento — breve, quase invisível — em que o humano se lembra de si. E nesse momento, o selvagem vence.

Depois que o menino sumiu de vez e a menina aprendeu o silêncio, o mundo continuou girando — barulhento, veloz, distraído. As pessoas voltaram às suas timelines, aos seus slogans de leveza, aos filtros de sempre. Mas, entre uma rolagem e outra, algo se perdeu no fundo dos olhos. Um tipo de saudade sem nome, uma inquietação que ninguém sabia traduzir. Talvez fosse o eco deles, o menino e a menina, que haviam deixado rastros invisíveis dentro das máquinas. A menina, agora mais mulher, continuava vivendo entre dois mundos. No trabalho, tudo era eficiência e presença digital. Em casa, o celular dormia virado para baixo, como se ela o castigasse. Ainda postava às vezes, mas nunca sobre si — apenas fragmentos: um gato no telhado, uma nuvem que parecia barco, um rosto anônimo refletido na vitrine. Não buscava mais aplauso, apenas vestígios. E quando alguém comentava “que poético”, ela sorria sem responder, porque sabia que poesia é o que acontece fora das palavras.

Certa manhã, ao atravessar uma rua estreita, viu um cartaz colado num muro úmido: uma foto antiga, em preto e branco, de um menino com folhas nos cabelos. Abaixo, uma frase escrita à mão: “Vocês me perderam quando tentaram me seguir.” Parou. O coração acelerou, não por saudade, mas por reconhecimento. Era como se aquele olhar estivesse vivo dentro dela, ainda chamando. Voltou para casa com uma ideia impossível: encontrá-lo. Não nas redes, não nos vídeos, mas em algum lugar real. Começou a caminhar pelos parques, pelas margens do lago, pelos lugares onde o som do vento ainda existia. Andava horas sem música, sem destino, apenas ouvindo os próprios passos. Descobriu que havia vida em cada ruído esquecido. Às vezes pensava em desistir — até que, numa tarde de neblina, ouviu um som vindo do mato: um estalo, um sopro, um quase-riso. Aproximou-se. Não havia ninguém. Mas no chão, sobre a terra úmida, encontrou uma pequena tela rachada — antiga, coberta de musgo. Ligou. Nada. O aparelho morto refletia apenas o rosto dela, manchado de chuva. E nesse reflexo, por um segundo, jurou ver um outro olhar ao fundo — selvagem e calmo.

Não soube se foi lembrança, alucinação ou encontro. Apenas entendeu. O menino não era uma pessoa. Era o nome que a liberdade ganha quando alguém se desliga do olhar alheio. Era o estado anterior à domesticação. E ela, agora, percebia que o carregava dentro de si desde o primeiro like. Voltou para casa devagar, sem pressa. Não contou a ninguém. No dia seguinte, o perfil dela desapareceu — não por decisão, mas porque simplesmente não fazia mais sentido. Quem a procurou encontrou apenas uma frase na bio: “Há vida fora da moldura.” Desde então, contam que às vezes, quando o wi-fi cai e o silêncio invade a sala, uma imagem antiga reaparece em certas telas: uma menina caminhando entre árvores, e um menino olhando o horizonte. Nenhum fala. Nenhum precisa. É só o mundo tentando lembrar que ainda há respiro, mesmo dentro das máquinas.

Dizem que, em algum ponto invisível da rede, há um espaço que não pertence a ninguém. Nem à empresa, nem ao algoritmo, nem ao fluxo incessante de dados. Um lugar fora do alcance dos dedos, onde o tempo não corre e o sinal não chega. É ali que alguns juram ouvir o eco de dois respiros — o do menino selvagem e o da menina domesticada. Ninguém sabe se ainda têm forma, se andam, se envelhecem. Há quem diga que viraram código, pulsando entre os zeros e uns que sustentam o mundo digital. Outros acreditam que se dissolveram, e agora vivem dentro de quem ousa se desconectar por um instante. Às vezes, quando o aparelho trava e a tela escurece, há quem veja um brilho breve, quase imperceptível, refletido no vidro. É o olhar dele. Logo depois, o reflexo de um rosto sereno, quase sorrindo. É o dela.

Não dizem nada. Não precisam. Apenas lembram — com sua presença muda — que não há cura para a ausência de si, e que ninguém é livre enquanto vive apenas no reflexo. O vento sopra pelas janelas abertas, o sol toca o chão dos quartos, e em cada respiração humana, por mais distraída que seja, há um fragmento deles dois. Selvagem e Domesticada. O que fomos e o que ainda podemos ser, se um dia tivermos coragem de desligar a tela e encarar o espelho sem medo.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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