O Guardião de Suas Memórias

Ele não tinha nenhum título oficial, mas ela o chamava assim — o guardião de suas memórias — porque precisava dar um nome para o lugar onde colocava tudo o que não conseguia segurar sozinha.

Encontravam-se às quartas-feiras, sempre no mesmo banco, perto do muro tomado pela hera. Era um canto discreto, tão despercebido que ninguém o escolheria para nada importante. Mas, para eles, era suficiente: um espaço pequeno para coisas grandes.
Ele chegava primeiro, com um caderno de capa azul desbotada, desses comprados na lojinha da esquina. Não tinha charme. Não tinha história. Só tinha papel — e, às vezes, isso é tudo.
Ela chegava depois, meio junta, meio solta, como quem vem carregando algo que não sabe onde encaixar. Sentava-se e, por alguns minutos, os dois apenas respiravam.
— Quando quiser — ele dizia, abrindo o caderno.
E ela começava.
Umas semanas trazia uma lembrança inteira, com cheiro, cor, temperatura. Outras, trazia só um fragmento: um nome que sumia rápido, um rosto desfocado, uma frase que ela sabia que já tinha ouvido de alguém, mas não lembrava mais de quem.
Ele escrevia sem interromper.
Sem corrigir.
Sem interpretar.
Ela falava como quem despeja; ele escrevia como quem segura a borda do balde para não cair nada.
Havia dias em que ela chorava.
Ele nunca oferecia o lenço.
Deixava que ela encontrasse o próprio bolso — e encontrava.
Havia dias em que ela ria.
E ele nem sempre entendia do quê, mas anotava o riso assim mesmo, do jeito que vinha: torto, curto, verdadeiro.

Um dia, ela chegou diferente.
Não parecia mais frágil — parecia cansada de ter sido frágil.
Sentou-se, respirou fundo e disse, sem rodeios:
— Eu quero meu caderno de volta.
Ele levou alguns segundos para reagir. Olhou para ela como se confirmasse se ouviu direito.
— Este? — perguntou, tocando o caderno azul.
— Este! — ela falou, confiante.
Ele abaixou a cabeça, passou o dedo pela capa desbotada e, por um instante, ela achou que ele fosse pedir uma justificativa. Mas não pediu.
— Está certo — disse, entregando o caderno nas mãos dela.
Ela segurou como quem testa a temperatura de algo quente demais.
— Eu vou levar — disse.
Ele concordou com um leve movimento. Sem drama.
Ela ficou quieta. Talvez esperasse alguma coisa dele, talvez não soubesse o que fazer agora que tinha tudo aquilo nas mãos. O vento mexeu nos cabelos dela e ele, com a voz baixa, murmurou:
— Não precisa me agradecer.
— Não sei o que agradecer — ela respondeu. — Eu só… não sei como é que faço agora.
Ele deu um meio sorriso, torto, honesto:
— Nem eu sei. Essa parte não é comigo.
Ela riu sem rir. Uma pequena rendição ao que era real.
— Talvez eu não volte mais.
— Eu sei — ele disse, sem peso.
Ela pensou em dizer algo mais. Um adeus, talvez. Mas adeus é exagero quando a gente não sabe se está indo mesmo ou só mudando de posição dentro da dor.
Então acenou com a cabeça — gesto curto, incerto — e começou a andar.

Deu três passos.
Parou.
Não se virou.
Ficou ali, imóvel, como quem escuta um som que não sabe se vem de dentro ou de fora. Depois retomou o caminho, num ritmo meio tonto, como quem reaprende a andar...
Ele não a chamou.
Não imaginou futuros.
Não tentou entender.
Ficou sentado no mesmo banco, sentindo o espaço ao lado — ainda quente pela presença dela — se transformar, devagar, em algum tipo de ausência.
Aos pés dele, uma folha seca girou no chão até repousar de lado. Ele a observou, sem achar sentido, sem procurar nenhum motivo.
Pegou outro caderno na sacola. Abriu numa página vazia. Levou a caneta até o papel.
Mas não escreveu.
Ficou ali, só isso: um homem, uma página branca, o ar que muda quando alguém vai embora, e o momento exato em que uma história termina sem dizer que acabou — deixando aberta a porta por onde a vida entra, sem pedir licença, como sempre fez.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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