O Desalinho dos Anjos
Foi numa calma estranha que o mundo começou a dar sinais de outra coisa, porque as coisas verdadeiras nunca chegam com anúncio, chegam devagar, sem pressa nem alvoroço...Elas apenas encostam de leve, como quem pede licença. Foi o coveiro quem notou primeiro, mas não comentou com ninguém. Guardou para si, como faz com quase tudo. Encontrou uma pena diferente, caída perto de uma roseira que nunca dava flor. Não era dessas bonitas, de cartão de batizado. Era uma pena cansada, desfiada nas pontas, parecendo tirada de um travesseiro muito antigo. Ele achou curioso, guardou no bolso e seguiu o dia. Só que, alguns enterros depois, encontrou outra. E depois outra. Como se algo ali estivesse se desfazendo sem pressa, deixando migalhas de si por onde passava.
A cidade também começou a
desconfiar, mas do jeito difuso com que percebemos mudanças no corpo antes de
adoecer. Eram pequenas coisas: um cheiro de incenso que aparecia no corredor do
hospital às três da manhã; um casaco pendurado numa árvore em dia sem vento;
uma pessoa desconhecida entrando na padaria da dona Marga e perguntando, com
uma seriedade desconfortável, se aquele pão “estava no estilo”. Ninguém sabia o
que responder, porque quem pergunta isso sobre pão certamente perdeu o ponto de
referência da vida.
O padre Basílio foi um dos
primeiros a dizer o que pensava, mas não no sermão. Dizia baixinho, no banco de
trás da igreja, mexendo no terço como quem remenda o próprio medo: “Eles estão
voltando. Ou caindo. Ou desistindo. Só sei que anjo assim, todo atrapalhado,
nunca vi.” E completava, com uma tristeza leve: “Acho que perderam o manual.”
Os estranhos começaram a
aparecer com mais frequência. Não tinham asas aparatosas, nada disso. Se
tinham, estavam mal cuidadas...escondidas sob casacos comuns, com penas
desfiadas escapando pelos punhos. Vestiam roupa de gente, mas sempre errada:
casaco de verão no inverno, bota trocada, cachecol amarrado como quem nunca
teve pescoço. Não provocavam medo. Provocavam reconhecimento. Como se fossem um
espelho torto daquilo que tentamos esconder de nós mesmos.
A moda dos anjos, se é que
se podia chamar assim, era justamente essa: não saber mais como se apresentar.
Perderam o glamour das pinturas antigas, o dourado das cúpulas, a elegância das
histórias. Estavam… humanos. E nenhum deles parecia confortável nisso. Olhavam
tudo com um espanto tímido — a pressa das pessoas no ônibus, o barulho metálico
dos supermercados, as crianças reclamando de tédio, os velhos cuidando dos
gatos. Como se tudo fosse novidade, mas uma novidade dolorida, não encantada.
Um dia, o coveiro encontrou
um desses seres, sentado no murinho do cemitério. Parecia um homem comum, mas
tinha no olhar o mesmo desfiado das penas. Perguntou o que ele fazia ali. O
anjo deu de ombros, gesto simples e devastador.
— Estou esperando alguém que não vai voltar.
O coveiro, que passara
décadas enterrando despedidas, entendeu sem esforço. Perguntou se podia ajudar.
O anjo sorriu — um sorriso que não era sorriso, era desconforto — e disse:
— Os humanos já ajudaram demais. Agora precisamos aprender a permanecer com
vocês.
E ficou mesmo. Dias, talvez
semanas. Ninguém tem calendário para seres assim. Só se sabe que, aos poucos,
mais penas foram aparecendo, espalhadas pela cidade. Não como sinal divino, mas
como rastro de cansaço. Anjos que, antes tão acima, agora caminhavam devagar,
tentando encontrar um lugar no mundo que ajudaram a costurar, mas nunca
habitaram.
Foi então que as pessoas
começaram a comentar, sem ironia: “Os anjos estão fora de moda.”
Mas a frase estava errada. Não foi que saíram de moda. É que a moda mudou, e
eles ficaram para trás. Os tempos exigiam coisas que eles não sabiam mais
oferecer: velocidade, bravatas, certezas absolutas. E eles só tinham o que
sempre tiveram — um tipo de olhar que acolhe, mas não resolve nada.
Com o tempo, foram sumindo.
Não para cima, nem para outro lugar. Apenas se dissolvendo no cotidiano. Um
virou porteiro de prédio. Outro, auxiliar de enfermagem. Uma anja, dizem,
começou a trabalhar na biblioteca, arrumando livros que ninguém pega. Não brilhavam
mais. Não tinham asas abertas. Só a postura de quem carrega um cansaço antigo
e, apesar disso, continua.
A última pena que o coveiro
encontrou não estava desfiada. Era macia de novo, quase bonita. Ele a guardou
entre as páginas de um livro e entendeu enfim o que ninguém sabia formular: os
anjos não tinham caído. Tinham se misturado. Deixaram de ser espetáculo e
viraram detalhe — como tudo o que importa de verdade.
E a moda deles, agora, era
essa:
ficar perto sem ser visto,
cuidar sem chamar atenção,
errar um pouco para caber entre nós.
Ninguém mais comenta.
Mas há quem diga que, às vezes, ao arrumar o próprio casaco, encontra ali,
grudada na lã, uma pena minúscula e suave. Não como milagre — como companhia.
O desalinho dos anjos
continuou.
Só ficou mais fácil de perceber.
Silvia Marchiori Buss
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