O Anjo Que Habita em Mim

Eu nunca acreditei em anjos — não dos que batem asas ou aparecem em vitrais de igrejas. Sempre achei que, se existissem, teriam mais a ver com rachaduras, remendos, quedas e silêncios do que com luz.

Mas, naquela manhã em que acordei com um gosto de metal na boca e a sensação de que o mundo tinha virado três centímetros para o lado, percebi que havia alguma coisa me observando. Não era alguém. Era algo.

Demorou horas até eu entender.

O relógio da cozinha tinha parado às 5h17. A chaleira assobiou sozinha, sem fogo aceso. O espelho devolveu meu rosto ligeiramente deslocado, como se uma parte de mim estivesse alguns passos adiantada — impaciente com o resto.

Foi quando escutei.

— Finalmente acordou.

A voz veio de dentro. Não da cabeça — de dentro. Como quem fala de um quarto trancado dentro do peito.

— Quem é você? — perguntei, sentindo o estômago gelar.

A resposta veio com leve irritação:

— Sou o anjo que habita em você. Não finja surpresa. Carrego suas quedas desde sempre.

Não era reconfortante. Não tinha aquele tom doce que as pessoas dão aos anjos nas novelas. A voz era firme, quase áspera, como quem já limpou muita sujeira que não era sua.

— Anjo? De guardar? — arrisquei.

— De empurrar.
— Como assim?
— Você só anda quando é jogada para frente. Sempre sou eu.

Fiquei sentada, em silêncio, digerindo aquilo. Um anjo que não me protegia, mas me empurrava? Parecia mais uma ameaça do que uma bênção.

— Por que agora resolveu falar? — perguntei.

A voz suspirou. E o suspiro fez o ar da sala tremer.

— Porque você anda me ignorando demais. E porque hoje é o dia.

— O dia do quê?

Silêncio. Depois, um barulho de asas — mas metálicas, não macias. Como lâminas se abrindo devagar.

— Levante. Vá até a janela.

Obedeci. A rua estava vazia, mas o céu… o céu estava estranho. Um cinza espesso, como massa de pão mal-sovada, se mexendo levemente. E, por um segundo, parecia olhar de volta para mim.

— O que está acontecendo? — sussurrei.

— Você veio sendo preparada para este instante desde a primeira dor verdadeira que sentiu. O ser humano acredita que o sofrimento o enfraquece. Mentira. Ele me alimenta. Cresço nas suas fendas. Habito no que você tenta esconder.

Meu coração começou a bater no pescoço.

— Então você… não é um anjo bom?

A risada soou como vidro trincando.

— Bom? Você ainda pensa assim? Eu sou o anjo que te impede de morrer. O que te empurra quando você quer se entregar. O que te faz levantar quando jura que não aguenta mais.

— Mas isso não é… bondade?

— Isso é trabalho. E hoje você vai precisar de mim como nunca precisou.

A janela se abriu sozinha.

O vento entrou com violência, e o céu desceu alguns centímetros, como se a cidade inteira estivesse sendo observada de muito perto. Lá fora, uma sombra gigantesca se movia, mas sem corpo. Um fenômeno, um aviso, um presságio — não sei.

Eu recuei, e a voz dentro de mim se ergueu, enorme:

— Não tenha medo. Medo é minha forma de abrir passagem.

O chão vibrou. Uma luz cortou o céu de repente, partindo as nuvens como uma cicatriz.

A voz então murmurou, mais macia — pela primeira vez.

— Chegou o momento de você entender que nunca esteve sozinha. Eu sempre estive aqui. Não para te salvar. Mas para te fazer continuar. Mesmo quando você jurava que não queria.

O vento cessou. O céu se recompôs. A janela se fechou.

Fiquei ofegante, tonta, sentindo algo se acomodar dentro de mim — como uma criatura que volta para sua caverna.

— Por que me mostrou isso? — perguntei, quase sem voz.

E ele respondeu, cansado, honesto, quase humano:

— Porque amanhã você vai precisar acreditar que pode seguir. Mesmo sem ele. Mesmo sem ninguém. E eu estou aqui. Não como luz. Como sobrevivência.

Depois disso, silêncio absoluto.

O relógio voltou a andar. A chaleira esfriou. O espelho me devolveu meu rosto — inteiro, alinhado.

Mas eu sabia.

Ele não havia ido embora.

O anjo que habita em mim só tinha voltado para o seu canto…
…à espera da próxima vez que eu achar que não aguento.

E, de algum modo estranho, assustador e verdadeiro…Eu me senti menos sozinha.

 

Silvia Marchiori Buss

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