" Meu Nome é Coragem"
Chamavam-na Coragem, embora nem sempre tivesse sido assim.
Nascera de um tropeço, de um “não sei” murmurando no vento, e crescera entre
portas entreabertas e vozes que lhe diziam o que devia ser. Nunca gostou de
deveres; sempre preferiu os talvez.
Morava em um pequeno
apartamento no alto de uma colina. De lá, o mundo parecia suspenso, como se a
cidade inteira respirasse com ela. Todas as manhãs, abria a janela e deixava
que o ar frio a despertasse. Havia quem precisasse de café; ela precisava de vento.
Trabalhava em uma livraria
que cheirava a páginas antigas e promessas não cumpridas. Era curioso observar
como as pessoas procuravam coragem nos livros — sem perceber que ela escapava
pelas frestas da própria pele. Coragem sabia disso. Passava os dias observando
as mãos que hesitavam antes de escolher um título, os olhos que buscavam abrigo
entre as lombadas, os sorrisos que tentavam disfarçar cansaços.
Foi ali que conheceu o
homem que não comprava livros.
Entrava todos os dias às quatro e permanecia parado diante da estante de
poesia. Lia os primeiros versos em silêncio e depois fechava o volume, como
quem devolve um segredo. Um dia, ela perguntou:
— Por que nunca leva nenhum pra casa?
Ele sorriu, meio perdido.
— Porque tenho medo de me reconhecer demais nas palavras.
Ela achou bonito. E triste.
A partir desse dia,
começaram a conversar — sempre entre os livros, sempre às quatro. Ele falava de
suas viagens inacabadas; ela, de personagens que nunca saíram do papel.
Pareciam duas histórias interrompidas que se encontravam por acaso.
Um dia, a chuva caiu com
tanta força que a cidade pareceu derreter. A luz acabou, e a livraria mergulhou
na penumbra. Ele chegou encharcado, os cabelos grudados na testa, e disse:
— Hoje não vim por poesia. Vim pra saber se você existe mesmo.
Ela poderia ter rido, feito
um comentário qualquer. Mas apenas tocou a mão dele. E naquele instante sentiu
algo que não era amor, nem paixão — era reconhecimento. Duas peles que sabiam o
que era continuar apesar do medo.
Depois disso, ele passou a
levar livros. Não de poesia, curiosamente. Levava romances, contos, ensaios
sobre mares distantes. Dizia que estava aprendendo a se ver sem se assustar.
Meses se passaram, e ele
simplesmente deixou de aparecer.
Nem carta, nem explicação, nada.
Mas não houve dor — houve
espaço.
Coragem percebeu que não era a ausência dele, mas a presença de tudo o que
ficara.
Continuou abrindo a janela,
deixando o vento entrar, observando as pessoas que procuravam coragem nas
prateleiras. Às vezes, ainda encontrava bilhetes dobrados dentro dos livros que
ele tocara. Palavras soltas, como quem ensaia uma despedida sem fim:
“A coragem não grita.
Respira.”
Então, ela sorria. Sabia
que ele havia entendido.
Chamavam-na Coragem.
E ela seguia, de mãos dadas com o talvez, olhando a vida pelas frestas — sem
precisar vencê-la, apenas vivê-la.
Silvia Marchiori Buss
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