Lugar Nenhum Também é Lugar
Na boleia de um caminhão velho, as laranjas rolavam de um lado para o outro a cada curva. Tinham cheiro de sol, de infância e de quintal, mas agora estavam presas num espaço metálico, sacudidas pelo caminho que ninguém escolheu. Entre elas, uma laranja resistia em silêncio, tentando manter-se inteira enquanto o mundo balançava demais.
Era assim também com ela —
a mulher que observava o asfalto pela janela do ônibus, como quem tenta
adivinhar o destino pelo tremor da estrada. Desde a partida dele, tudo parecia
se mover sem aviso. As manhãs vinham com o mesmo café, o mesmo prato, o mesmo
vento na cortina. Mas algo havia se deslocado por dentro, como se o eixo do
mundo tivesse girado um pouco fora do centro.
Ela pensava nas laranjas.
Talvez cada uma buscasse seu canto no caminhão, tentando não se chocar com as
outras, tentando não rachar antes da hora. Assim era ela: uma laranja inteira,
mas sem lugar certo no caixote da vida.
Às vezes imaginava que o
caminhão subia uma serra. Sentia o cheiro úmido das árvores, o ranger da
engrenagem, o motor arfando nas subidas. Em outras, parecia descer — e o
coração descia junto, mais rápido que o corpo, como se a saudade tivesse
inclinação própria. A cada curva, uma lembrança rolava dentro dela: o riso dele
no quintal, o gosto da primeira chuva, o barulho das colheres depois do jantar.
A estrada não explicava
nada. Só seguia, com suas retas longas e silêncios. Havia dias em que ela
pensava em saltar, encontrar um campo de terra vermelha e se deixar ficar ali,
sob o sol, amadurecendo sozinha. Outros dias, achava bonito o simples fato de
continuar rolando.
O caminhão parou. O
motorista desceu para fumar um cigarro à beira da estrada. A mulher, ainda
dentro do ônibus que vinha logo atrás, observou o gesto dele — tão humano, tão
distraído. O vento soprou as cinzas e levou junto um pouco do pó da estrada.
O motor voltou a roncar. As
laranjas retomaram o balanço, se chocando, se ajustando. Ela fechou os olhos e
deixou que a tarde passasse devagar. Lá fora, o asfalto ardia; dentro dela,
tudo ainda tentava achar o próprio lugar.
Ninguém chegou. Nem partiu
de vez.
Mas havia, no meio da poeira e do barulho, um instante breve de sossego —
como se, por um momento, lugar nenhum também fosse lugar.
Silvia Marchiori Buss
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