" Heroicamente Nos Salvamos do Chão Frio e Duro"

Ninguém percebe de verdade, mas há dias em que sobrevivemos por um fio invisível — um desses fios que não se compra, não se pede emprestado, não se convence ninguém a segurar por nós. Ele simplesmente aparece quando o chão, frio e duro, ameaça se aproximar demais.

Naquela manhã, o mundo parecia coberto por um silêncio de neblina. As pessoas caminhavam apressadas, tropeçando em suas próprias urgências, e ninguém enxergava ninguém. Mas havia dois corpos insistindo em permanecer de pé: ela e ele. Não juntos — não mais. Apenas duas sombras que aprenderam, cada uma à sua maneira, a salvar-se dos abismos cotidianos.

Ela vinha carregando a alma num saco de pano rasgado. Acordara com aquela sensação de queda, como se o dia fosse um poço interminável. Bebeu café morno, prendeu o cabelo sem espelho, vestiu o primeiro casaco. E saiu. Não por querer — mas porque ficar parada parecia pior.

Ele vinha de outra guerra, dessas silenciosas. Perdera o riso aos poucos e já nem lembrava como era tê-lo sempre por perto. Ainda assim caminhava, cada passo uma espécie de trégua contra o peso que insistia em puxá-lo para baixo.

O destino, com seus caprichos antigos, fez com que se encontrassem na esquina da velha praça — a mesma onde, anos antes, dividiram sonhos que não sabiam sustentar. Não se tocaram. Apenas pararam. O tempo, que corre, engasgou por um instante.

Ela sorriu com aquele canto de boca que ainda lembrava o verão.
Ele respirou como quem reconhece um perfume guardado na memória.

— Você está… bem? — ele perguntou, sem saber se queria resposta.

Ela não mentiu nem inventou coragem. Só disse, do jeito que dava:
— Heroicamente… me salvando do chão frio e duro.

Ele entendeu.

Havia dias em que nada disso era força ou coragem.
Era apenas um modo torto de continuar de pé.

A gente levantava sem saber por quê.
Ajeitava o casaco, respirava fundo, encontrava um rumo qualquer.
E seguia. Sem lição, sem explicação.
Apenas o corpo, teimoso, recusando-se a cair.

Ficaram ali um momento, lado a lado, sem tocar-se.
Um pacto mudo: não remexer o que já tinha virado sombra.
Mesmo assim, algo passou entre eles — uma faísca tênue, quase imperceptível, como quem reconhece no outro a mesma batalha silenciosa.

O vento atravessou a praça.
Um pássaro cantou deslocado.
A cidade não notou nada.

Ela ajeitou o casaco.
Ele recolheu o olhar.
E o instante terminou.

E seguiram. Nada resolvido, nada encerrado. Apenas dois corpos afastando-se um do outro, levando consigo um resto de calor que não sabiam nomear. Talvez fosse só o dia abrindo uma fresta. Talvez não fosse nada. Mas, enquanto caminhavam, o chão pareceu — por um breve segundo — menos frio e menos duro.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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