Entre Elos e Ausência

Há correntes que não prendem — sustentam.

O amor é uma delas.

Durante anos, caminhei presa a uma corrente feita de afetos, risos, cumplicidades e silêncios compartilhados. Cada elo era um instante: o primeiro olhar, o primeiro toque, o primeiro medo vencido a dois. E assim fomos forjando, elo por elo, uma corrente que resistiu ao tempo, às tempestades, à rotina e até aos silêncios.

Quando ele partiu, um dos elos se desprendeu.
O barulho foi surdo, mas o impacto, profundo. Senti a vibração em toda a corrente — nas lembranças, na casa, no corpo. Faltava algo essencial, e por mais que os outros elos continuassem firmes, percebi o vazio que um único rompimento pode causar.

Mas o amor é matéria que não se dissolve com o tempo nem se parte com a ausência.
A corrente que construímos não se desfez: ela apenas se alongou, ganhou outra forma, invisível talvez, mas ainda presente. O elo que se soltou não se perdeu — apenas se libertou do peso do mundo. Continua ligado, só que agora em outra dimensão, onde as correntes são de luz.

E quando toco os elos que restam — filhos, netos, memórias, gestos que ficaram — sinto o eco dele em cada um. É como se o amor tivesse aprendido a circular, a se reinventar dentro da ausência.

Um dia, sei, todos os elos se soltarão.
Mas se forem forjados no amor, nenhum cairá no vazio.
Apenas se unirão de novo, em outra corrente — talvez de estrelas, talvez de alma — onde não haverá mais separação, nem dor, nem partida.

Até lá, sigo aqui, segurando com ternura os elos que ficaram,
sabendo que o amor, mesmo quando perde uma forma,
nunca perde a força.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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