Enquanto Eu Te Sinto

É inerente a todos os seres vivos morrerem. Faz parte do ciclo biológico da vida. Desde o instante em que nascemos, começamos, sem perceber, a morrer um pouco — como se cada célula já soubesse o caminho de volta.

Morremos aos poucos, no que cai, no que envelhece, no que muda. Mas também nas pequenas partidas que a vida impõe: as ausências, os silêncios, os lugares que já não têm o mesmo som.

A ciência diz que somos os únicos seres pensantes do planeta. Talvez. Mas penso se o pássaro que perde o voo companheiro não sente também a vertigem da solidão. Se a árvore que sobra depois da poda não lamenta em silêncio o espaço vazio ao lado.

Ou será que somos nós, humanos, os mais frágeis — tão presos à matéria, tão carentes de presença, que confundimos o amor com o corpo, o toque, o olhar?

Dizem que o amor não tem medidas, que atravessa fronteiras, idiomas e distâncias. Mas o que acontece com ele quando a morte chega? Acaba? Ou apenas muda de forma — como a água que evapora, sobe, e depois volta em chuva?

Aprendi, à custa de saudade, que o amor não termina. Ele muda de casa. Sai do corpo e se aloja no ar, no vento, na memória, no gesto que repito sem pensar.
Às vezes, quando o silêncio é grande demais, sinto teu cheiro no ar, como se tivesses acabado de passar por mim. Outras vezes, é só uma música antiga que me encontra — e, por segundos, tudo volta a existir: a tua voz, o riso, o toque leve na minha mão.

Então eu entendo: não foste embora por completo. Estás nas pequenas coisas, nos detalhes que o tempo não conseguiu apagar.
Vives no que me faz lembrar, no que me faz continuar.

A morte levou o corpo, mas não levou o amor.
Ele ficou aqui — simples, humano, pulsando em mim como o coração que ainda insiste em bater por dois.

Enquanto eu te sinto, a vida segue.
E, por mais invisível que seja, o amor continua — respirando em mim, do jeito que pode, do jeito que sabe: quieto, fiel, eterno.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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