Ele Não Queria Partir
Ele não queria partir. Não porque tivesse medo do que vinha depois — apenas ainda não tinha terminado o que veio fazer aqui. Faltavam-lhe abraços. Faltavam risadas interrompidas por tosses. Faltava um café inteiro na varanda, assistindo o vento disputar espaço com as cortinas. Faltava o cheiro dela quando acordava e o silêncio cúmplice que acontecia antes de dizer bom dia.
Ele não queria partir
porque as coisas pequenas ainda o chamavam: o som do correio na porta, o canto
rouco de um sabiá que sempre errava o horário, o bilhete esquecido dentro de um
livro, o olhar do neto que parecia o dele aos oito anos — curioso, intenso,
impaciente. Partir, para ele, era como ser arrancado de uma frase no meio da
vírgula. Havia tanto ainda a ser dito.
Mas o tempo, esse
relojoeiro invisível, começou a apertar os parafusos da existência. Os
ponteiros do corpo já não marcavam as horas certas. Às vezes esquecia nomes,
confundia manhã com tarde, mas ainda reconhecia o cheiro do feijão cozinhando e
o som da chave na fechadura: era ela voltando. E isso bastava para mantê-lo
ali, inteiro, por mais um dia.
Ele não acreditava em
despedidas. Acreditava em continuidade — na forma como o perfume do jasmim
permanece mesmo depois que a flor cai. Acreditava que o amor tem essa mania de
ficar, de ocupar espaços vazios, de se alojar nas frestas. E talvez por isso, quando
a vida começou a se recolher, decidiu permanecer de outro modo. Ficou no casaco
pendurado na cadeira. Ficou na caneca preferida, lascada na borda. Ficou no
relógio que ela nunca conseguiu ajustar. Ficou no modo como ela dobra os
lençóis e suspira olhando a janela.
Ele não partiu — apenas
mudou de lugar. Agora é o vento que sopra as cortinas, o cheiro que chega antes
da chuva, a lembrança que acende o riso sem motivo, o calor leve que se sente
quando ninguém mais está por perto. Ele não queria partir — e, de algum modo,
não partiu.
Naquela manhã, ela acordou
com a sensação de que ele estava por perto. Não soube explicar. Era algo no ar,
no modo como o relógio da sala pareceu parar por um segundo antes de voltar a
marcar o tempo. Levantou devagar, como quem atravessa uma lembrança. Preparou o
café do jeito que ele gostava, por hábito — três colheres cheias, nenhuma a
mais. Quando o aroma começou a se espalhar, olhou para a cadeira onde ele
costumava sentar.
— Você não ia embora sem se
despedir — disse, sem perceber que tinha falado alto.
O som da própria voz a
assustou. Riu, nervosa. Mas depois ouviu um ruído pequeno, como o ranger do
assoalho. E, por um instante, teve certeza de que ele responderia.
— Eu não fui — ele disse.
Não era uma voz que se
ouvisse com os ouvidos. Era uma presença que falava dentro dela, com a mesma
firmeza calma que ele sempre teve.
— Não inventa — ela
murmurou. — Já faz tempo.
— O tempo não é o que você
pensa. Ainda estou aqui.
Ela sentou-se à mesa. O
vapor do café subia em espirais lentas. Pensou que estava enlouquecendo, mas
não se importou.
— Aqui onde? — perguntou,
olhando para o nada.
— Onde deixei tudo o que eu
era. No que ainda vive em você.
Ela apertou a caneca entre
os dedos, como se pudesse agarrar aquela ausência.
— Você prometeu que
ficaríamos velhos juntos. Que veríamos os netos crescerem. Que...
— E estamos — ele
interrompeu. — O que prometi, cumpro de outro jeito.
A cozinha tinha o mesmo
cheiro de sempre, mas agora parecia menor, como se o mundo tivesse se recolhido
ao redor da mesa.
— Eu não sei viver sem você
— disse ela, num fio de voz.
— Claro que sabe. Só não
aprendeu ainda.
Ela fechou os olhos. Chorou
sem barulho. Sentiu algo leve tocar-lhe o ombro — um arrepio morno, impossível
de nomear.
— Não me peça para partir —
ele disse. — Porque eu nunca quis.
— E por que não fica,
então? — ela perguntou.
— Porque não posso ser
visto. Só sentido.
O café esfriou. A manhã foi
tomando corpo lá fora. Ela ficou ali, quieta, olhando a fumaça que se
dissipava. O relógio voltou a andar. E, por um instante, o ponteiro pareceu
marcar o tempo certo outra vez.
Silvia Marchiori Buss
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