As Seriedades Que o Tempo Ri
Quantas bobagens levamos a sério. Quantas guerras travamos por nada. Quantas vezes esquecemos que a vida, essa mesma que fingimos dominar, é breve demais para tanta gravidade. Se soubéssemos antes — antes das perdas, antes das partidas, antes dos sustos — que o tempo é um fio delicado prestes a se romper, talvez vivêssemos diferente. Talvez ríssemos mais, brigássemos menos. Talvez dançássemos mais, mesmo sem música.
A vida deveria ser curtida
como um presente. Como uma festa inesperada, daquelas em que se chega sem saber
quem estará, mas se escolhe ficar. Uma festa onde o vinho é o instante, o riso
é o idioma e o relógio não entra. Mas insistimos em transformá-la em
expediente: planilhamos os dias, contabilizamos alegrias, programamos até o
prazer. O simples café vira pressa, o abraço vira distração, o silêncio vira
culpa.
O mundo, esse palco de
urgências, nos convence de que só tem valor quem produz, conquista, vence. E,
nesse jogo cruel, esquecemos de viver. O ser humano — o único ser pensante —
construiu um planeta cansado, onde pensar dói e sentir é luxo. Criamos um modo
de vida em que o amor é adiado, o descanso é vergonha, e a felicidade virou
produto.
A vida tenta avisar. Às
vezes num susto, às vezes num vazio, às vezes na ausência de quem era chão. E
quando a dor chega, o cenário se revela: tudo o que parecia importante era
apenas vaidade. As metas, os números, os títulos — todos se dissolvem no ar, enquanto
o que era pequeno, simples e quase esquecido mostra sua grandeza.
O tempo, sábio e irônico,
observa de longe e ri. Ri das nossas seriedades, das nossas certezas de
concreto, das urgências inventadas. Ri da nossa mania de medir a vida em
resultados e não em presenças. Ri da pressa com que atravessamos os dias, como
se houvesse um prêmio no final da corrida.
E nós seguimos, sérios
demais para perceber o riso do tempo.
Olhamos para o relógio, mas esquecemos de olhar o pôr do sol.
Reclamamos da chuva, mas não sentimos o perfume que ela traz.
Acreditamos ser eternos — e passamos pela vida como convidados distraídos de
uma festa que já começou.
Sem lição, sem moral, sem
consolo.
Apenas a constatação suave e amarga de que poderíamos ter vivido melhor — com
mais leveza, mais riso, mais presença.
Porque o tempo continua a
rir.
E nós, ainda tão sérios, esquecemos que a vida era pra ser dançada.
Silvia Marchiori Buss
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