Alma Inquieta
Catarina nasceu entre colinas verdes e riachos que falavam baixo. A vila era pequena, com ruas de chão batido, casas brancas de janelas azuis e galinhas atravessando a estrada sem pressa. O cheiro de pão saía das cozinhas nas manhãs de domingo, e a vida parecia andar em passos curtos, como se o tempo tivesse preguiça de passar.
Mas Catarina era diferente.
Desde menina, tinha olhos que se moviam antes do corpo. Corria atrás do vento,
falava com as borboletas e perguntava à mãe onde dormiam as nuvens.
— Essa menina tem uma alma
inquieta — dizia a mãe, rindo, enquanto enxugava as mãos no avental.
A avó, de leque em punho,
completava:
— É alma que não se aquieta
nem com reza.
Catarina ouvia e não
entendia. Procurava essa tal alma nos pulsos, nos pés, no espelho. Talvez
morasse no lugar que doía quando chorava — pensava.
Com o tempo, acostumou-se a
não caber nos lugares. Lia um pouco, escrevia muito, mudava os móveis de
posição sem motivo e colecionava começos — de amizades, de cartas, de sonhos.
Guardava todos em sua alma inquieta, como quem junta pedras à beira do rio sem
saber por quê.
Foi em um desses começos
que ele apareceu. Tinha mãos firmes e um olhar que repousava. Gostava do
silêncio, do café quente e de observar os pássaros. Catarina acreditou que, com
ele, a alma enfim ficaria quieta.
Mas o amor, em vez de
acalmar, acendeu tudo.
Havia dias em que ela
falava sem parar, tentando acompanhar o que sentia. Ele apenas sorria, deixando
o tempo correr entre os dois. Às vezes, sentavam-se na varanda em silêncio, e
era como se o mundo inteiro coubesse naquele intervalo. Outras vezes, pareciam
distantes, cada um em seu próprio país invisível.
A casa deles tinha cheiro
de lenha e de domingo. O rádio tocava músicas antigas e modernas — tanto fazia;
sendo música, todas eram boas. O vento batia nas cortinas como um visitante
conhecido. Era amor, mesmo nos desencontros — amor que não pedia explicação.
Até que, numa manhã comum,
ele se foi. Sem aviso, sem promessas.
A xícara ficou no mesmo
lugar, o casaco na cadeira e o tempo, de repente, perdeu a forma. Por dias,
Catarina moveu-se dentro de um nevoeiro. Depois, quase sem saber por que, saiu
de casa e caminhou até o riacho.
As colinas diante dela
continuavam verdes, mas havia nelas um silêncio novo, quase suspenso. O riacho
seguia o seu curso, manso e incansável, chorando talvez de alegria, talvez de
tristeza — ela nunca soubera distinguir. Apenas sabia que ele chorava.
Catarina não chorava como o
riacho. Ficou imóvel, os olhos secos, o corpo entregue ao som da água. Era como
se o choro tivesse se deslocado para fora dela, correndo junto com a água.
Às vezes, achava que o
vento lhe trazia o rastro dele; outras, que era só o costume da presença —
aquela parte do amor que não sabe morrer.
E então, sem perceber, algo
nela se moveu. Não em palavras, mas no corpo, no olhar, na pausa. Não era paz
nem aceitação. Era outra coisa — uma corrente leve que a fazia continuar.
O tempo voltou a passar:
torto, distraído, teimoso. E Catarina, com sua alma ainda inquieta, aprendeu a
caminhar dentro desse rumor de ausências, sem querer entender, apenas sendo,
como quem ouve, de muito longe, uma música que não termina, só muda de ritmo.
Silvia Marchiori Buss
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