A Pressa do Outono

Caminhando por Lausanne nesse sábado de sol e temperatura amena, penso em como as estações do ano podem nos representar. Há algo de profundamente humano nesse impulso de nomear o tempo conforme o que sentimos. Costumamos classificar os dias: feios, frios, tristes, alegres, claros, escaldantes… como se o céu fosse um espelho do humor, como se o vento soprasse segundo o estado de espírito da alma.

Confesso: eu prefiro o sol. Mesmo quando ele exagera e traz desconforto, há nele uma promessa de vida, uma lembrança de que a luz sempre encontra caminho entre as nuvens. O sol me devolve movimento, me faz querer estar no mundo, andar sem destino, observar os reflexos nas janelas e o brilho dourado nos telhados. Ainda assim, aprendi a acolher o aconchego do inverno, esse tempo de recolhimento que nos convida ao silêncio, às xícaras quentes e às pausas necessárias.

A primavera, com sua sutileza quase tímida, vem sempre como um sussurro depois da longa espera. Há nela uma delicadeza que me comove — o renascer discreto das flores, o verde que volta devagar, como quem pede licença para existir de novo.

E então chega o outono, esse tempo de revolta e despedida, que vive entre duas estações marcantes: o verão e o inverno. É uma ponte, um entrelugar. Nem o calor que embriaga, nem o frio que recolhe. O outono é o instante da passagem — e talvez por isso doa tanto.

Mas não dá pra negar que o outono deste ano por aqui exagerou na pressa. Chegou apressado, como quem tem hora marcada e não quer se demorar nas cores. As folhas mal vermelheceram e já se rendem ao chão, empurradas por um vento que anuncia o fim. O ar que era doce e dourado agora tem um gosto de inverno chegando, um frio que se infiltra pelas frestas das janelas e pelos silêncios das tardes.

O Léman sopra seu vento gelado, como se testasse nossa resistência. Lá de longe, os Alpes se deixam ver, já desenhados em branco, anunciando o rigor do que vem. E, mesmo assim, há beleza nesse prenúncio. Há algo de comovente na pressa do outono — talvez porque ele nos lembre que o tempo também passa dentro de nós, com a mesma urgência silenciosa das folhas que caem.

Caminho, então, sem pressa. Deixo que o vento traga o inverno e leve consigo o que já não precisa ficar. Cada estação, penso, é também uma forma de alma — e hoje, a minha tem cor de outono.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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