A Mulher Que Voava Com Balões
O quarto parecia suspenso dentro da tarde.
Havia nele um silêncio quase mineral — o tipo de silêncio que antecede o gesto
irreversível.
O lençol branco, amarrotado, deixava ver um canto de colcha bordada com flores
miúdas, e o ar tinha o perfume doce de lavanda e poeira.
Ela se movia lentamente,
como se cada movimento precisasse ser medido. Vestia um vestido cor de pêssego
envelhecido, tecido leve, gasto nos ombros, e nos pés descalços havia a
transparência dos que já não esperam voltar.
Na cadeira, três balões ainda murchos — azul, amarelo e transparente. Sobre a
mesa, uma xícara de café frio e uma pequena tesoura de costura.
O vento entrou sem ser
chamado, abrindo a cortina. O tecido inflou como um pulmão.
Ela olhou para o céu pela janela: nuvens finas, quase brancas, flutuando como
promessas sem dono.
Pela primeira vez em meses, teve vontade de sair.
Amarrou os balões com linha
de costura — nó firme, simples, quase infantil.
O azul era riso, o amarelo lembrança, o transparente… ninguém saberia dizer.
Talvez esquecimento.
Antes de abrir o portão, ela parou. Tocou o ferro frio com os dedos e respirou
fundo — o ar lhe pareceu leve, como se já soubesse.
Lá fora, o dia não prometia
nada.
As fachadas estavam gastas de tanto tempo, e o asfalto cheirava a sol. Um gato
dormia num carro, indiferente ao milagre que se preparava.
Ela começou a andar, segurando os fios dos balões como quem segura o último fio
do mundo.
Foi o menino quem a viu
primeiro.
Tinha oito anos, joelhos ralados, e colecionava tampinhas de garrafa.
Estava sentado no meio-fio, desenhando com um graveto, quando levantou os olhos
e a viu atravessar a rua — a mulher de vestido leve, cabelos soltos, flutuando
um pouco mais do que andava.
— Senhora, a senhora vai
aonde? — perguntou, meio rindo, meio assustado.
Ela não respondeu.
Sorriu um sorriso quase invisível e olhou para o céu, como se perguntasse o
mesmo.
O menino percebeu, então,
que o azul já havia subido demais. Estourou, e o som ecoou breve, sem espanto.
O amarelo subiu depois, rodopiando.
Restava o transparente, que não refletia nada além dela — uma mulher debruçada
sobre o ar.
De repente, algo mudou.
O vento cresceu, levantando poeira, folhas secas e o vestido pêssego que agora
parecia uma chama viva.
Ela fechou os olhos e se deixou ir, leve, erguendo os pés do chão como quem
aceita uma verdade antiga.
O menino correu. Tentou
segurá-la pelo braço, mas não havia mais braço — só o ar, o fio e o tecido
flutuando.
O transparente subiu devagar, levando junto uma sombra, um resto de corpo, uma
ideia de mulher.
Ele ficou olhando até o
pescoço do céu engolir o último ponto claro.
Depois, sentou-se no meio-fio e chorou sem saber por quê.
Não era medo, nem tristeza — era outra coisa. Uma sensação de que o mundo
acabara de perder algo que ele não sabia nomear.
À noite, quando voltou pra
casa, contou à mãe que uma mulher tinha voado com balões.
A mãe respondeu sem olhar:
— Ninguém voa, menino. Deve ter sido um sonho.
Mas no dia seguinte, o
menino voltou à rua.
No fio do portão, preso como uma prova delicada, havia um pedaço de linha e um
fiapo do vestido cor de pêssego.
Ele o guardou num bolso, sem dizer nada.
Anos depois, já homem
feito, ainda olhava o céu nas tardes de vento.
E às vezes, quando o ar se tornava leve demais, jurava ver uma sombra tênue,
uma dobra de vestido, um reflexo transparente que se movia no horizonte —
como se alguém, enfim, tivesse aprendido a permanecer sem tocar o chão.
Silvia Marchiori Buss
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