A Coroa das Montanhas

 Dizem que as montanhas choram sobre o Léman.

Não é metáfora, nem exagero de quem vive perto demais da borda das águas — é só a lógica da natureza fazendo poesia.

Quando o inverno chega silencioso, a primeira neve pousa sobre os Alpes como quem repousa uma coroa sobre a cabeça de um rei cansado. Aos poucos, essa coroa se expande, firme e prateada, impondo sua presença sobre cada dobra das encostas. É uma coroa que não precisa de joias: sua única função é anunciar que, por meses, ali domina a realeza branca — um reinado frio, mas majestoso.

E é nesse reinado que as montanhas aprendem a conter suas próprias lágrimas.

Lá em cima, elas suportam o peso do gelo, dos ventos que sopram como vozes antigas, e dos dias curtos que parecem reduzir o mundo a um suspiro. Firmes, mantêm-se intactas. Sólidas. Impermeáveis ao que sentem, mesmo que ninguém saiba o quanto o gelo pesa por dentro.

Mas basta a primeira promessa de calor — um sol mais demorado, um vento que erra o tom, um pássaro que se aventura cedo demais — e toda a realeza começa a derreter. O que não pôde ser dito cai em filetes, ribeiros, torrentes. As montanhas choram. Não de tristeza: de alívio. De permitir-se.
E o Léman, vasto como um abraço que nunca julga, recebe cada lágrima sem perguntar sua origem.

É assim todos os anos.
É assim desde sempre.
E eu, que não sou montanha e nem me arrisco a ser lago, observo o rito e me reconheço.

Também carrego minha própria coroa — não de neve, mas de silêncio.
Um silêncio espesso, branco, que se impõe sobre mim quando tento seguir adiante sem desmanchar o que ainda dói.
Um silêncio que me endurece porque, se derreter cedo demais, talvez eu não aguente o que virá depois.

Vivo assim: firme por fora, acumulando o inverno por dentro.
Sigo pelas ruas estreitas de Lausanne com essa coroa invisível sobre a cabeça, prendendo-me para não inundar o que resta de mim.

Mas há dias em que o sol insiste.
Dias em que o lago me olha de um jeito que reconheço — porque ele também guarda o que recebe.
E então sinto, lá no fundo, que minha própria neve começa a ceder.

Talvez, como os Alpes, eu esteja apenas esperando a estação certa.
Talvez eu também precise de um pouco mais de calor para permitir que minhas lágrimas encontrem o caminho até o Léman, ou até onde for possível deixá-las cair.

Por enquanto, estou assim:
contida nessa coroa de lágrimas que ainda não desabou, mas já treme nos cantos.

E quando o degelo vier — porque ele sempre encontra um modo — talvez eu só deixe que aconteça.
Sem anunciar, sem explicar, sem pedir permissão.

As montanhas fazem assim.
E eu aprendo com elas, devagar.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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