A Casa Que Respira Baixo
A chaleira começou a apitar antes das sete. Mercedes desligou o fogo devagar, como quem teme acordar o tempo. O vapor subiu em espirais curtas, dissolvendo-se no ar frio da cozinha.
Ela observou a fumaça
desaparecer e pensou que talvez fosse assim que as pessoas se vão — aos poucos,
sem barulho, até restar apenas o cheiro do que houve.
A casa estava limpa demais,
silenciosa demais. O rádio calado, a cadeira vazia, o relógio pontual. Cada
coisa em seu lugar, como se a vida tivesse parado ali, na exatidão do hábito.
Mercedes andava devagar,
arrastando as pantufas pelo chão — não por cansaço, mas para ouvir algum som
que provasse a própria existência.
“Estou aqui”, dizia a si mesma, sem voz.
Costumava conversar com os
objetos — as xícaras, os panos, as plantas.
Eles não respondiam, e isso lhe parecia uma forma delicada de companhia.
Enquanto varria o chão,
pensava no que restava dos dias: pequenas tarefas que sustentavam o ar. Gestos
que, por algum motivo, mantinham o mundo em ordem, mesmo quando o corpo já não
acreditava tanto nisso.
O tempo, agora que sobrava,
parecia maior.
As manhãs se arrastavam como se esperassem algo que não vinha.
“Passei a vida pedindo calmaria, e agora me assusto com o silêncio”, pensou.
À tarde, sentava-se perto
da janela. O mundo lá fora era apressado, ruidoso, cheio de começos.
“Talvez todos estejam tentando fugir do vazio”, murmurava. “Eu só aprendi a
conviver com ele.”
Preparava chá mesmo sem
vontade. O calor da xícara entre as mãos era a prova de que ainda havia
temperatura no corpo.
Beber algo quente é lembrar que se está viva, pensou.
À noite, o espelho devolvia
um rosto que parecia o seu, mas não inteiramente.
“Sou eu, mas de outra época”, sussurrou. “De quando eu ainda esperava.”
Antes de deitar-se, acendeu
a luz do corredor — não por medo, mas por costume.
“Assim o tempo me encontra se quiser passar por aqui”, disse em voz baixa.
Quando apagou o abajur, a
luz do corredor vacilou. Piscou uma, duas vezes.
Mercedes ficou imóvel.
O som veio logo depois — um leve tilintar, como o choque de uma colher contra a
porcelana.
O coração bateu no ritmo
antigo, aquele que reconhecia.
“Será?”, perguntou-se.
Não se levantou. Apenas
sorriu, cansada e curiosa.
Talvez fosse o vento.
Talvez não.
Na manhã seguinte, o cheiro
de café chegou antes dela à cozinha.
Por um instante, Mercedes acreditou ter esquecido de desligar a cafeteira na
noite anterior.
Mas a máquina estava fria.
Ficou parada, olhando o
vapor imaginário subir.
Depois, sentou-se, serviu-se de um gole de chá e deixou que o silêncio
completasse o resto.
Silvia Marchiori Buss
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