A Casa Que Parecia Torta

A casa parecia ter cochilado em pé.

Não ruía, apenas se inclinava — como quem, por pudor ou lembrança, se curva diante de algo que já não está ali.

Vista de longe, era um desenho imperfeito na paisagem: o telhado pendia para o sul, a varanda para o leste, e o portão, cansado, já não sabia para qual lado abrir. As janelas, duas pálpebras de madeira descascada, fitavam o nada com ternura.

O que os olhos não viam era o modo como ela respirava.
Sim, respirava. O vento entrava pelas frestas, circulava pelos cômodos, subia pelas escadas e saía num suspiro leve pelo telhado — como se a casa tivesse pulmões feitos de poeira e lembranças.

Dentro, o ar tinha um gosto antigo.
Cheiro de vela esquecida, de roupa molhada que nunca secou, de carta que esperou resposta.
O relógio da sala marcava horas quebradas — 10h47, 3h19, 8h08 — todas paradas no instante exato em que alguma emoção, invisível e silenciosa, pesava demais.

No quarto principal, a cama ainda guardava o formato de dois corpos, embora só um lençol fosse trocado. O outro permanecia dobrado, limpo, fiel.
Havia um casaco pendurado no cabide desde sempre. Ninguém o tocava. Talvez por medo de que o dono voltasse. Talvez por medo de que não voltasse nunca.

À noite, a casa fazia sons que não pertenciam a este mundo: o ranger do soalho lembrava soluço, o bater de janelas parecia conversa entre fantasmas. E às vezes, quando a lua se encostava na cumeeira, jorrava pelas frestas uma claridade torta — meio prata, meio lembrança.

Os vizinhos diziam que a casa se entortou depois da partida do homem que a construiu com as próprias mãos. “Um pedreiro que fazia orações entre um tijolo e outro”, diziam.
Mas a velha da esquina jurava ter visto outra coisa: uma tarde, o homem saiu pelo portão e a casa, como se sentisse a ausência, começou a dobrar-se, lentamente, como uma árvore que se curva sob o peso do próprio fruto.

Desde então, ela vive assim — debruçada sobre o próprio alicerce, como quem se escuta.
Há quem passe por ela e sinta tontura. Outros, compaixão.
As crianças, curiosas, dizem que ela sorri de lado, que seus vidros piscam quando chove.

Um dia, uma moça entrou. Tinha olhos cansados e mãos de quem já perdeu. Quis varrer o chão, mas o pó se levantou antes dela — flutuou devagar, como se dançasse, e pousou sobre o piano da sala. Uma nota soou, baixinha.
A moça ficou.

Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, a casa endireitou um pouco.
Não muito — apenas o suficiente para que a lua entrasse inteira pela janela.

Os dias seguintes trouxeram ruídos novos: um rádio ligado na cozinha, cheiro de café, risadas pequenas. E, a cada manhã, o piso rangia um “obrigada” que só quem tem alma percebe.

Mas nada dura sem mistério.
Certa manhã, a moça partiu, deixando sobre a mesa uma flor seca e uma xícara ainda morna. A casa, ao vê-la sumir ladeira abaixo, começou a se inclinar novamente — como se dobrasse o corpo para guardar o que sentia.

Hoje, dizem que ela dorme.
Deitada sobre si mesma, com o telhado quase roçando o chão, sonha um sonho que ninguém escuta.
Os passarinhos ainda pousam no beiral, e há uma brisa leve que entra por baixo da porta, como quem faz carinho em um animal cansado.

Alguns afirmam que, nas madrugadas de lua cheia, ouve-se um piano tocando dentro — uma melodia torta, bonita, triste — e que a casa se move, milimetricamente, como se respirasse outra vez.

Talvez não seja a casa que está torta.
Talvez sejamos nós, endireitados demais para entender o ângulo em que a saudade escolhe viver.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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