Se Quiseres, Assim Será

A mesa entre eles parecia maior do que realmente era. O espaço, antes íntimo, parecia carregado de uma distância quase palpável. A madeira gasta já ouvira tantas conversas leves, risos partilhados, planos precipitados… mas, já se tornara apenas palco de um silêncio incômodo.

Ele passava os dedos pela alça da xícara, evitando encará-la. O gesto contido denunciava um homem exausto de discussões circulares. Quantas vezes tinham repetido as mesmas acusações? Quantas vezes haviam se ferido com palavras ditas de modo rápido demais e arrependido de modo lento demais?

Ela, imóvel, observava a janela. A lembrança da última noite juntos a queimava: os gritos, a forte batida da porta, a frase que escapara dele e que ela jurara nunca mais perdoar. E, no entanto, ali estavam. Dois estranhos na mesma sala, lembrando com desconforto que também haviam sido cúmplices.

Ele respirou fundo e, por fim, levantou o olhar.
— Se quiseres ficar...

Não havia ternura na voz, tampouco raiva. Apenas um traço de rendição, como quem coloca a escolha na mão do outro.

Ela sentiu o corpo estremecer. "Se quiseres ficar"... ele se referia a muito mais do que a casa ou à noite. Era sobre não desistirem, apesar das fissuras. Era sobre continuar carregando juntos uma história que já tinha rachaduras visíveis.

Por dentro, a memória ainda pulsava: a ofensa, a distância fria dos últimos meses, o modo como haviam se evitado até dentro do mesmo quarto. Parte dela gritava para levantar-se, sair e não voltar. Mas outra parte, cansada do peso, desejava a chance de tentar, mesmo que a tentativa fosse imperfeita.

Demorou a responder. O silêncio estendeu-se tanto que ele já parecia pronto para aceitar qualquer ausência. Então, quase num sussurro, ela disse:
— Assim será.

Ele não sorriu. Apenas ergueu a xícara e bebeu um gole, como quem sela um pacto silencioso. Não havia reconciliação plena, nem promessa de futuro. Apenas a decisão de permanecer, ainda que como dois desconhecidos aprendendo outra vez o nome um do outro.

 

Silvia Marchiori Buss

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora