Pequenas Coragens
O relógio da praça marcava nove horas quando Inácio atravessou o portão enferrujado do jardim público. A cada passo, o ranger metálico atrás dele parecia anunciar um retorno ao mundo que não escolhera, mas do qual não podia fugir. Caminhava devagar, como quem negocia com a própria sombra, e sentou-se no banco de madeira gasto, do mesmo lado de sempre, de frente para a fonte que não jorrava mais água, apenas guardava musgos como lembrança de um tempo vivo.
Do outro lado, Maitê, de
lenço vermelho no cabelo, equilibrava um caderno sobre os joelhos. Desenhava
árvores que não existiam ali, apenas na sua memória. Eram sempre frondosas, com
galhos abertos como braços prontos para um abraço. “Coragens são isso”,
pensava, enquanto riscava com firmeza o grafite, “galhos que se estendem
mesmo sabendo do peso do vento”.
Inácio olhou para ela sem
intenção. Apenas olhou. Havia meses que se encontravam assim, sem combinar, sem
falar, como se fossem cúmplices de um pacto silencioso: dividir a solidão sem
precisar nomeá-la. Para ele, coragem estava em levantar-se da cama todas as
manhãs, ajeitar o chapéu gasto e caminhar até a praça, mesmo quando a tristeza
pesava como pedra nos ombros. Não era feito de grandes gestos, mas daquele
pequeno movimento repetido: existir, um dia após o outro.
Foi então que chegou Jaime,
menino de oito anos, filho de uma das feirantes da rua ao lado. Trazia uma bola
gasta e um par de olhos mais vivos que uma manhã de primavera. Chutou a bola de
leve em direção à fonte seca e riu. O riso ecoou na praça como se devolvesse
movimento ao que estava parado. Para Jaime, coragem era continuar brincando
mesmo quando faltava espaço, amigos ou brinquedos novos; era inventar alegria
onde a vida era estreita.
Inácio sorriu de canto,
surpreso consigo mesmo; Maitê levantou os olhos do caderno, como quem recebe um
presente inesperado.
— A fonte já não canta —
disse Jaime, encostando-se ao banco.
— Mas ela lembra — respondeu Maitê, passando a mão pelo papel.
— Lembrar também é coragem — completou Inácio, sem planejar a fala.
O silêncio que se seguiu
não foi vazio. Havia nele algo de costura: três pontos diferentes se unindo,
mesmo que frouxamente.
Maitê voltou ao desenho, e
desta vez não escondeu o que lhe atravessava o coração. Seus galhos, antes
pesados, se erguiam mais leves, quase dançantes. Jaime correu atrás da bola,
deixando atrás de si uma trilha de passos apressados, e Inácio fechou os olhos
por um instante, tentando guardar no peito o sopro discreto de vida que a cena
lhe oferecia.
Quando abriu os olhos, a
praça era a mesma: a fonte parada, o banco gasto, a manhã comum. Ainda assim,
havia um fio de esperança — tênue, frágil — trançado à solidão que não se
desfazia. Um fio que tremia como a folha esquecida no chão, prestes a ser levada
pelo vento.
Silvia Marchiori Buss
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