O Tempo Que Me Atropela

Às vezes penso que nem Garfield — não sei se o tempo passa ou se ele me atropela.

Talvez as duas coisas. Talvez ele passe enquanto me atropela, distraído, apressado, impiedoso.

O tempo não pede licença. Não buzina na curva, não freia no sinal amarelo. Ele simplesmente vem — e quando me dou conta, já deixou marcas de pneu no rosto, nas mãos, nas memórias.

Há dias em que tento acompanhá-lo, ajusto relógios, planejo horários, corro atrás dos minutos como quem tenta recolher folhas levadas pelo vento. Mas ele sempre escapa. Escorrega por entre compromissos, conversas inacabadas e olhares que não tiveram tempo de durar.

Outras vezes, canso. Sento no meio da rua por onde ele passa e deixo. Deixo que me leve, que me empurre, que me arraste na poeira dos dias. Porque há algo de libertador em parar de lutar contra a pressa.

O tempo me atropela, sim. Mas também me acorda.
Me faz perceber o quanto ainda quero viver, o quanto ainda quero sentir antes que ele dobre a esquina de novo.
Talvez seja esse o segredo: não correr ao lado dele, nem tentar detê-lo — apenas seguir cambaleando, rindo da própria pressa, com o coração ainda pulsando, mesmo depois do atropelo.

No fim das contas, quem sabe o tempo só faz isso porque sabe que, se não nos sacudir de vez em quando, a gente esquece de viver.

 

Silvia Marchiori Buss

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