Notas para te Encontrar
Nossa casa era feita de música.
As manhãs já nasciam acompanhadas de acordes, como se a claridade tivesse trilha sonora. O rádio estava sempre ligado, dia e noite, em algum canal de música que enchia de vida até os silêncios. A “Alexa”, cúmplice silenciosa, guardava nossa playlist preferida como quem guarda um segredo. Bastava um pedido, e ali estavam os blues que embalavam nossas viagens, o jazz que nos fazia sorrir no caminho de volta, os clássicos que nos surpreendiam no meio da estrada.
Nas viagens, cantarolávamos juntos, desafinados às vezes, mas cúmplices sempre. O carro se transformava em palco, em confessionário, em festa. Era o espaço onde nos reconhecíamos no ritmo do outro, cada canção como uma espécie de pacto.
A última música que cantei para ti foi “Carinhoso”. Lembro da tua expressão — não havia plateia, não havia palco, apenas o nosso jardim. E mesmo assim, teus olhos me olhavam como se eu estivesse iluminada por refletores, como se o mundo inteiro tivesse parado para ouvir. Eu cantei baixinho, mas era inteiro o que eu dizia. A música, de tão simples, se tornou imensa na tua escuta.
Então veio setembro, e a música se desfez. Não sei se ela se apagou junto contigo, ou se apenas se escondeu num canto, esperando que eu aprendesse a escutá-la de novo. A casa ficou cheia de um silêncio estranho, não de ausência, mas de eco. Um eco onde, às vezes, ainda reconheço tua voz misturada às notas.
Foi nesse silêncio que uma tarde, sem aviso, surgiu no rádio “Brincar de Viver”, de Bethânia. E ali estavas tu — livre, espontâneo, inteiro naquela letra forte e verdadeira. Era como se tivesses encontrado, na música, um jeito de te mostrar de novo pra mim, não com o corpo, mas com a alma.
Agora tento, aos poucos, colocar um disco, ouvir um refrão, deixar que um blues se estenda pela sala. É como caminhar descalça sobre um chão desconhecido: vacilante, mas real. Cada acorde novo carrega uma memória, e cada memória é também um pedaço de futuro. Talvez a música nunca mais seja a mesma, mas ainda assim continua — como um fio invisível que me liga a ti, entre um refrão e outro, sem pressa, sem ponto final.
Silvia Marchiori Buss
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