A Mulher do Vestido Vermelho

A mulher da Rua do Cachimbo era exuberante, extravagante, abundante... É, penso que esse último seja o adjetivo mais adequado para descrevê-la. Abundava em tudo — se é que o português permite essa ousadia.

A maquiagem de seu rosto já envelhecido parecia ter parado no tempo, década de 1960. Os olhos, sempre com sombra azul e contornados com lápis preto, sustentavam cílios postiços que emolduravam pálpebras ligeiramente caídas pela ação da gravidade. A boca, ainda carnuda, parecia uma maçã vermelha, daquelas bem maduras. As unhas, longas e impecavelmente pintadas de vermelho, denunciavam que as tarefas domésticas não faziam parte de sua rotina.

Os cabelos cacheados, loiríssimos e platinados, em estilo Marilyn Monroe, estavam sempre nos trinques. Seria injustiça não mencionar seus fartos seios — duas colinas formando um profundo vale adornado por colares dourados e pedras coloridas.

Costumava usar vestidos vermelhos. O modelo preferido era o tubinho, justo na cintura, com uma fenda discreta nas costas, deixando entrever as coxas ainda bem torneadas e sugerindo a “preferência nacional”. Não havia viva alma que não se virasse para “admirar” a senhora — ou talvez senhorita, pois dela só se sabia o nome e o gosto pelo vermelho.

A pequena cidade cochichava que a mulher pertencia a alguma seita, ou coisa parecida. Era metódica, mas jamais discreta: caminhava sempre pelo mesmo trajeto, no mesmo horário, como se o tempo lhe devesse obediência. Quando ela passava, era um acontecimento. As pessoas paravam, olhavam, comentavam — e admiravam a mulher do vestido vermelho.

Dona Flor, como se apresentava, não tinha dois maridos. Vivia sozinha numa grande casa. Permaneceu ali mesmo após a morte da mãe — do pai, ninguém jamais teve notícia, nem os mais antigos do lugar.

Parecia ter parado no tempo, sem perceber a virada do século. Diziam que ainda guardava réis debaixo do colchão, desconfiada dos bancos, fiel apenas aos seus hábitos e aos seus passeios. O vilarejo oferecia pouca diversão, mas isso nunca lhe fez falta: seu “chique” era desfilar, de cima a baixo e de baixo a cima, pela rua principal. Antes com a mãe, agora sozinha.

Costumava frequentar a farmácia, ainda que gozasse de perfeita saúde. Passava horas remexendo entre cosméticos, mas comprava sempre os mesmos: sombra azul, batom vermelho, lápis preto e um pouco de ruge.

Dia sim, dia não, era vista na casa lotérica. Fazia sempre a mesma aposta, recusando sugestões de outros jogos. Assim se repetiam os dias de Dona Flor: sorvete – casa, farmácia – casa, lotérica – casa, e inúmeras voltas na calçada — para cima e para baixo, para baixo e para cima. Sempre só.

Até que, numa segunda-feira de fevereiro, Dona Flor se emperiquitou mais cedo. De vestido vermelho, cabelos platinados, unhas longas e pintadas, olhos e boca exageradamente maquiados, deu o ar da graça fora de seu horário habitual. Dessa vez, dirigiu-se a um lugar incomum.

Rebolando como nunca, subiu as escadarias do banco. No balcão, inclinou-se com elegância estudada, deixando à mostra o decote generoso. De seu vale encantado e adornado de dourado, retirou um papel cuidadosamente dobrado — o bilhete premiado da sorte.

Desde então, Dona Flor não caminha mais sozinha pela Rua do Cachimbo. Não tem dois maridos, mas conquistou um novo amor: o atendente da farmácia, aquele que durante anos lhe vendeu sombra azul e batom vermelho, sem jamais imaginar que seria parte de seu destino.

Agora, todas as tardes, é possível vê-los caminhando juntos — ela, de vestido escarlate e sorriso de quem venceu o tempo; ele, com olhar sereno de quem descobriu o encanto que se esconde por trás dos exageros.

Quando passam, o vento levanta levemente a barra do vestido e o sol faz cintilar o cabelo platinado. É como se a cidade parasse um instante, só para vê-los passar.

E dizem, por aí, que Dona Flor segue exuberante, extravagante — e finalmente abundante também em fortuna e em amor.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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