A Estação Que Ninguém Marca Hora
Às vezes, enquanto caminho pelas ruelas estreitas de Lausanne — essas que ora me abraçam com charme antigo, ora me surpreendem com frieza de concreto — penso na morte como quem pensa num trem partindo de uma estação. Um trem silencioso, sem bilhete de volta visível, mas talvez com paradas secretas pelo caminho.
Será que a morte é mesmo um
fim ou seria apenas uma fuga temporária? Um intervalo para os que não suportam
as constantes discussões, os atritos, os cansaços de uma vida que, mesmo bela,
pode ser exaustiva? Penso nos que “se vão” não como ausentes definitivos, mas
como viajantes que se teletransportam para outra dimensão, para um lugar onde
as DRs da vida talvez não existam — ou existam de outra forma, menos cortante,
menos urgente.
Enquanto subo as colinas ou
contemplo o Léman se estendendo diante dos Alpes, fico imaginando se, no fundo,
a morte não seria um “tempo fora”, como no jogo. Um refúgio para o corpo
cansado, para a mente sobrecarregada, para o espírito exausto das repetições e
dos embates. Seria possível voltar depois, recomeçar, atravessar novamente o
portal e retomar os mesmos dramas interrompidos? Ou, quem sabe, no outro lado
do véu não existam mais DRs, mais desgastes, mais disputas?
Mas então lembro que somos
os únicos seres — pelo menos os únicos que conhecemos — capazes de pensar sobre
a própria existência e, por isso, sobre o próprio fim. Animais, plantas, rios e
montanhas simplesmente “são”. Nós, humanos, “sabemos que somos” — e, no meio
desse saber, nascem tanto a beleza da consciência quanto o peso das dúvidas. É
esse mesmo peso que nos faz olhar para o desconhecido e inventar hipóteses,
mitos, crenças e filosofias.
Talvez a morte seja fuga.
Talvez seja retorno. Talvez seja apenas transformação, uma espécie de descanso
do material para o imaterial, do barulho para o silêncio. Não tenho respostas,
apenas imagens que me visitam entre uma esquina e outra, entre um gole de café
e o vento gelado do outono suíço.
E penso que, enquanto não
sabemos, enquanto o trem não chega para nós, o que nos resta é viver. Viver
sabendo que o mistério nos acompanha, que as dúvidas nos habitam, que o fim não
é um ponto fixo mas uma interrogação que caminha ao nosso lado. E que, apesar
do cansaço, das DRs, das desilusões e dos encantos falhos, ainda estamos aqui —
caminhando, respirando, tentando compreender.
Silvia Marchiori Buss
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