A Espessura do Silêncio
Ela sentia-se como se estivesse caminhando sobre um lago com uma fina camada de gelo separando-a das profundezas da água. A cada passo, o silêncio estalava — não o barulho alto de vidro quebrando, mas uma fissura curta, quase tímida, que se abria e se fechava como se o mundo prendesse a respiração.
O ar vinha úmido do sul,
carregado de um cheiro antigo — folhas molhadas, metal esquecido, algo que
lembrava a cozinha de uma casa que já não existe. Ela não olhava para a
superfície: os reflexos — de luz, de rostos — confundiam-na. Preferia olhar
para os pontos de referência que ainda travavam a paisagem: um banco
semiafundado na margem, uma árvore que persistia com as raízes à mostra, a
chaminé de uma fábrica longínqua que cuspia fumaça com uma paciência de monge.
Os passos eram repetitivos,
quase rituais. Era possível que alguém chamasse aquilo de esquiva, de tentativa
de se manter inteira quando tudo ao redor ameaçava dissolver. Não havia vontade
de acertar nada, nem de consertar. Havia apenas o ato — andar, ouvir, medir a
própria coragem em centímetros. Quando passava por onde o gelo parecia mais
fino, sentia um frio que atravessava as botas e subia pelos ossos, uma notícia
íntima que dizia: há sempre algo embaixo.
Ela lembrava, às vezes, de
como a superfície fora espelho um dia. Houvera momentos em que se reconheceu
ali, inteira, sem fissuras. Agora, os olhos lhe pregavam peças: via imagens que
não eram suas, via mãos que talvez tivessem sido dela e não eram mais. Às
vezes, um pedaço de jornal congelado, preso ao bordo, trazia uma letra
conhecida, uma data que não fazia sentido. Ela apanhava o jornal e deixava-o
escorregar entre os dedos sem ler. Ler poderia ser promessa; promessa poderia
ser traição.
Havia vozes, mas distantes
— crianças que riam do outro lado da margem, um homem que assobiava uma canção
inventada. A voz dela, quando surgia, era baixa, como se pertencesse a outro
corpo. Falava consigo em frases curtas: nomes de coisas, nomes de dias, um
inventário de pequenas coisas que mantinham alguma lógica dentro do
desconserto. "Chave. Copo. Sofá. Janela." Repetia-os como se dissesse
as coordenadas de uma casa que não sabia mais habitar.
Em certo ponto, o lago
dobrava como um livro que se recusa a ser lido até o fim. Ela parou. Olhou a
linha onde o gelo findava e o escuro se tornava promessa e ameaça indistintas.
Não havia medo espetacular — o medo de cinema — havia uma quietude tão profunda
que parecia conter todas as maneiras possíveis de partir. Pensou em voltar.
Pensou em continuar. Entre as duas opções, escolheu uma que não era escolha:
permaneceu onde estava, sentindo a pulsação do gelo sob as solas.
Recordações atravessavam-na
de forma irrelevante e cruel — um braço encostado num corrimão, a música de um
bar que cheirava a suor e café, a mão dele que quase tocou a sua quando a luz
entrou de repente e ela fingiu que não viu. Eram fragmentos que não se
encaixavam em nenhum mosaico, apenas peças soltas espalhadas sobre a mesa. Ela
juntava uma, deixava outra cair. Não havia lição a extrair; não queria que
houvesse.
O vento mudou de direção e
trouxe um som de metal mexendo. Talvez fosse a antiga varanda, talvez um barco
esquecido. O som era pequeno e, ao mesmo tempo, repleto de insistência — como
se alguém, lá embaixo, tentasse empurrar uma porta selada. Ela prestou atenção,
não por curiosidade, mas porque a atenção é uma forma de companhia. Quando
voltou a andar, o gelo estalou com mais frequência. Um estalo distinto, logo
atrás, fez-lhe virar o rosto: nada além do vapor se erguendo em círculos no ar
frio.
Caminhou até onde o lago
alargava, onde a água parecia mais profunda e o céu se inclinava para um azul
que não conhecia nome. Ali, inclinou-se e tocou o gelo com a ponta do dedo. Não
era fino nem forte; era um limite — suficientemente resistente para sustentar,
suficientemente frágil para lembrar. A marca do seu toque ficou, por um
instante, como uma impressão breve em porcelana. Depois, nada.
Ela pensou nas coisas que
se mantêm depois que o resto se vai. Pensou nas roupas dobradas num armário,
nos bilhetes guardados por preguiça, nas promessas feitas à noite e jamais
mencionadas pela manhã. Pensou, também, que talvez o lago tivesse as próprias
memórias, camadas sucessivas de verões e invernos, de nomes pronunciados e
esquecidos. Talvez, se alguém descesse, encontraria ali — nas profundezas —
pequenos cenários, uma xícara quebrada, um par de luvas; objetos que, no
entanto, não explicariam por que o gelo dá lugar à água e a água ao fundo.
O caminho de volta era
diferente do de ida. Não porque o lago mudara, mas porque as coisas têm a
habilidade de se rearranjar quando olhamos de novo. As pedras na margem
pareciam mais próximas. O banco, agora, estava vazio de propósito, apenas um
objeto onde se poderia sentar e não decidir. No bolso do casaco, um papel que
antes estivera em branco tinha agora uma mancha de tinta — não escrita, só
presença. Ela apertou o papel entre os dedos, não para ler, apenas para sentir.
Ao longe, os sinos de uma
igreja tocaram. Não marcaram hora nem saudação, apenas uma persistência
metálica que atravessou o lago e se dissolveu em ondas pequenas no ar. Ela
sorriu, não um sorriso de alegria, mas um gesto de reconhecimento: o mundo
continuava, indolor e obstinado, mesmo quando alguns de nós caminhávamos por
superfícies que poderiam ceder.
Quando a noite começou a
cair, as luzes da cidade apareceram como antecipações já gastas. Ela ficou mais
um pouco, como quem espera que algo aconteça — não uma resposta, mas um gesto
que confirme a sua própria presença. Nada aconteceu. Ou talvez tudo o que havia
para acontecer já tivesse acontecido, em silêncio, no interior do gelo.
Levantou-se e seguiu. Cada
passo ecoava no vazio como uma voz pequena que insiste. Atrás, o lago ficou —
uma mancha escura, uma promessa sem nome. À frente, a margem. Entre as duas, o
gelo, fino e resistente, sustentando uma possibilidade. Ela caminhou, e o final
não veio.
Silvia Marchiori Buss
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