Vista Seu Melhor Sorriso e Saia Por Aí
Ela abriu a gaveta como quem busca um lenço, mas o que queria mesmo era coragem. Havia dias em que não sabia onde a tinha guardado — se entre as meias escuras, nos bolsos de um casaco antigo ou esquecida dentro de um livro que não terminou de ler.
No espelho, a boca
desenhava um esboço de sorriso, desses que ainda não aprenderam a ficar de pé
sozinhos. Passou batom sem convicção, mas percebeu que o gesto de pintar os
lábios já era quase um ensaio para enfrentar a rua.
Lá fora, ninguém saberia
que a noite passada fora povoada de insônias. Que o travesseiro guardava
confidências úmidas e que a cozinha amanhecera cheia de pratos que não se teve
ânimo de lavar. A rua não pede explicações. A rua só pede que a gente se mova.
Então ela vestiu o sorriso.
Não era novo, mas cabia bem. Era o suficiente para atravessar esquinas,
cumprimentar desconhecidos, comprar pão, fingir que a vida segue seu roteiro.
E, enquanto caminhava, descobriu que o sorriso emprestado se tornava verdadeiro,
como se o corpo tivesse memórias próprias de alegria guardadas no fundo.
As pessoas a olhavam como
quem recebe um presente inesperado. E, por um instante, acreditavam que o mundo
podia ser mais leve. Ela não tinha essa intenção — apenas queria atravessar o
dia. Mas, sem perceber, espalhava pequenas centelhas nos olhos de quem cruzava.
No fim da tarde, ao voltar
para casa, ainda havia cansaço nos ombros, mas o sorriso permanecia. Não porque
tivesse resolvido alguma coisa, mas porque, de algum modo, descobrira que
vestir o próprio rosto de esperança, ainda que vacilante, era uma forma de não
se perder de si mesma.
E assim, dia após dia, ela
repetia o ritual: abria a gaveta, recolhia a coragem em forma de sorriso e saía
por aí. Não para provar nada a ninguém, mas para lembrar a si mesma que seguir
andando já era, por si só, uma espécie de vitória silenciosa.
Silvia Marchiori Buss
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