Quando o Tempo se Dobra em Nós
O tempo em Lausanne tem um compasso próprio, parece dobrar-se diferente dos ponteiros que giram no Brasil. Enquanto aqui abro a janela para a manhã, lá ainda é madrugada. Cinco horas de diferença e um oceano inteiro de distância. Caminho pelas ruelas estreitas, cada pedra do calçamento guardando passos que não são meus, mas que me emprestam a sensação de pertencer. Perder-se, aqui, é também um modo de se encontrar.
Penso no que me disse um
grande amigo, antes da travessia para esta nova vida: “Estou na fase do
autoconhecimento.” Hoje entendo melhor o que ele quis dizer.
Autoconhecer-se é quando a gente se basta. É aprender a estar só sem sentir a
solidão como sentença. É aceitar que a própria presença pode ser companhia
suficiente, como um rio que, mesmo sem margens ao lado, segue inteiro, levando
em si tudo o que precisa.
Eu, aquariana de fevereiro,
sei de cor o peso e a leveza disso. Sempre fui mais cuidadora que cuidada.
Talvez esse seja o segredo do bastar-se: não esperar que alguém estenda a mão,
mas ser a própria mão que afaga. Não ansiar por quem venha carregar o fardo,
mas aprender a equilibrá-lo como quem dança com uma jarra de água na cabeça — o
líquido balança, mas não transborda.
Bastar-se não é fechar as
portas ao mundo, não é recusar companhia. É apenas não depender dela. Se houver
alguém ao lado, tanto melhor: o vinho se abre, a conversa se alonga, a vida se
enriquece. Mas se não houver, que o silêncio também se torne hóspede bem-vindo,
capaz de aquecer a casa com sua calma.
Na verdade, bastar-se é
como essas tardes em Lausanne em que o sol repousa devagar sobre o Lago Léman.
Não precisa de aplausos, não precisa de plateia. O espetáculo é completo em si
mesmo, ainda que ninguém esteja olhando.
E talvez, afinal, seja isso
que chamamos de autoconhecimento: compreender que a vida tem ruelas em que
caminhamos sozinhos, mas que ainda assim nos levam a praças abertas, onde o
vento e a luz nos acompanham sem pedir licença.
Silvia Marchiori Buss
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