O Valor do Ordinário

Sempre esperamos pelos milagres, como se a vida só fosse vida quando o extraordinário nos atravessa: um amor arrebatador, uma viagem inesquecível, uma conquista que nos arranca aplausos. Mas, se formos honestos, a vida não é feita de milagres. Ela se desenha no ordinário — nos dias comuns, cheios de erros, amores e dores.

É no café da manhã meio apressado, no pão que queima um pouco na torradeira, no abraço rápido antes de sair de casa. É no bilhete esquecido sobre a mesa, no riso inesperado durante uma conversa qualquer, no silêncio partilhado diante da televisão. O ordinário é o chão que pisamos todos os dias, ainda que não o celebremos.

Esperamos pelo extraordinário, mas é o ordinário que nos sustenta. A vida real acontece quando o ônibus atrasa, quando o guarda-chuva quebra no meio da chuva, quando a saudade aperta e ninguém liga para consolar. Mas também acontece quando alguém se importa com nosso cansaço, quando uma música antiga nos arranca lágrimas, quando dividimos o mesmo espaço com quem amamos em plena simplicidade.

As dores também fazem parte desse ordinário. Não como espetáculo, mas como pequenas pedras nos bolsos que nos lembram de que estamos vivos. E, junto delas, os amores — que não precisam ser épicos, mas constantes. O amor que cozinha, que espera, que insiste.

O extraordinário pode até acontecer, mas não é ele que garante sentido. O que nos transforma é o ordinário vivido com presença: o olhar que se demora, a palavra que ampara, a rotina que, aos poucos, se torna memória.

Afinal, a vida não é feita de fogos de artifício. Ela é, quase sempre, o acender da luz da cozinha no começo da manhã.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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