O Segredo no Tic - Tac
Tic-tac-tic-tac. O relógio da sala insistia em marcar os minutos como quem crava pequenas estacas invisíveis no peito dela.
As horas não passavam: escoavam, como sangue fino por baixo da porta.
Ele havia ligado duas
vezes.
Na primeira, silêncio.
Na segunda, a frase seca que cortou o ar:
— Estou na cidade. Preciso ver você.
Nada de cumprimentos, nada
de perguntas. Apenas o anúncio. Desde então, a casa respirava com dificuldade.
As cortinas cerradas, o ar parado, o telefone sobre a mesa como um animal que
prometia morder a qualquer instante.
O que a atormentava não era
o divórcio em si, mas o gesto final que cometera naquela noite em que ele
partira: a denúncia enviada às autoridades e aos sócios, com provas de fraudes,
contratos quebrados, o golpe exposto letra por letra.
Ela mesma, em silêncio, havia selado o destino dele.
Dizia a si mesma que fora sobrevivência, mas a palavra nunca coube.
O que havia, de fato, era culpa.
O interfone vibrou.
— Sou eu — disse ele. — Abre.
Tic-tac-tic-tac.
Quando a porta se abriu,
entrou também o passado, como um vento que sabe de cor o caminho. Ele estava
mais magro, a pele marcada por um sol que aquela cidade não oferecia, o casaco
cheirando a maresia antiga — sal seco, lembrança de água que foi. Nenhuma
fórmula de civilidade. Apenas os olhos, que não procuraram nada além dela, como
se a casa fosse cenário e o relógio, trilha de um filme barato.
— Você sabia que eu
voltaria — disse ele.
— Não sabia se queria — respondeu, e a voz lhe saiu limpa demais para o que
sentia.
Ele caminhou até a mesa.
Não tocou em nada, não sentou. Ficou de pé, um homem que aprendera a viver sem
amparo. Abriu o paletó, tirou um envelope fino, sem remetente, e pousou no
tampo como quem deposita uma prova ou um pássaro morto.
— Foi você? — perguntou.
O tic-tac pareceu ganhar
peso. Ela encarou o envelope como se fosse de vidro e deixasse ver seus ossos.
Não adiantaria negar. A mentira, naquele instante, seria mais vulgar que a
própria verdade.
— Eu fiz o que achei que me
salvaria — disse.
— Salvou?
Ela tentou dizer “não”, mas
a palavra ficou presa atrás dos dentes. A sala encolheu um pouco. O relógio
mudou o timbre do tempo.
Ele abriu o envelope. Lá
dentro, uma foto amarelada: os dois diante do mar, um carrinho de água de coco
ao fundo, o riso de quem achava que a maré sempre traz. Ao lado, uma chave de
latão e uma folha impressa: a cópia do e-mail que ela mesma enviara, com seu
nome ao alto, denunciando-o por fraude, anexando documentos, selando sua ruína.
— Encontrei por acaso — ele
disse, sem teatralidade. — O fornecedor que sobrou me mostrou. Guardou como
quem guarda facas.
Ela respirou, finalmente. A
dor vinha sem surpresa. A foto, sim, feria. Havia ali uma felicidade que não
combinava com nenhum dos dois. Uma cena que não cabia mais em lugar algum.
— Você veio cobrar? —
perguntou. — Dinheiro? Humilhação?
— Vim ouvir — respondeu. — E devolver.
— Devolver o quê?
Ele empurrou a foto, a
chave e a denúncia impressa na direção dela.
— O resto. O que sobrou do que fomos. O que não me serve mais.
— E a chave?
— É da casa. A sua casa. Eu
já tinha deixado, mas achei mais uma. Ou ela me achou.
Ela segurou a chave com a
ponta dos dedos, como se queimasse. O metal tinha a temperatura exata da
memória: fria, necessária. O relógio bateu uma nova marca, um som metálico que
pareceu atravessar a pele.
— Não vou perguntar por quê
— disse ele, por fim. — Quem pergunta quer resposta que caiba na própria
cabeça. A minha, você sabe, encolheu.
— Eu estava com medo —
disse ela. — Do futuro, de mim, de virar ninguém.
Ele concordou. Levou a mão
ao bolso e tirou um pequeno isqueiro barato. Brincou com a roda, sem acender.
— Sabe o que aprendi no
mar? — perguntou, quase sorrindo. — Que a água não guarda. Ela transforma. O
que fica guardado é a gente.
Ela não respondeu. Pensou
em pedir desculpas, mas havia palavras que, ditas, se gastam. Preferiu o
silêncio.
Ele deu dois passos, ficou
de frente para o relógio. Observou a máquina com atenção de relojoeiro
improvisado. O tique era firme, a caixa de madeira, antiga.
— Posso? — perguntou, sem
virar o rosto.
— O relógio?
— É. Está alto demais.
Antes que ela respondesse,
ele estendeu a mão e, com gesto leve, empurrou o pêndulo só o suficiente para
quebrar o compasso. O som falhou, cambaleou, parou. A sala se encheu de um
silêncio espesso, desses que fazem ouvir os próprios batimentos. O tempo, ali,
perdeu o passo.
— Melhor assim — disse ele.
— Agora cada um escuta o que quiser.
Ele recolheu o isqueiro,
guardou no bolso. Não tocou na foto nem no papel. Olhou-a uma última vez — um
olhar que não pedia nada e, por isso mesmo, desequilibrava.
— Amanhã alguém pode bater
na sua porta — disse, já no corredor. — Não serei eu.
Ela quis perguntar se era
ameaça, aviso, consolo. Quis perguntar se ele já tinha perdoado ou se apenas
aprendera a boiar. Quis perguntar qualquer coisa que adiasse o fim daquela
visita. Não perguntou. Apenas assentiu, como quem recebe uma sentença cujo texto
não domina.
A porta se fechou.
Ela ficou com o envelope, a chave, a foto e um relógio morto na parede.
Abriu a janela. O ar de
fora tinha cheiro de chuva que não vinha. Por um instante, pensou em acender o
fogareiro e queimar o papel — deixar que a fumaça subisse levando junto o nome
dela, a data, a hora, a prova. Por outro, pensou em guardar tudo numa gaveta e
esperar o que viesse, como quem aguarda a maré certa para atravessar.
O telefone, calado, parecia
mais pesado do que antes.
Ela encostou a testa no vidro e respirou devagar. O silêncio novo não
consolava, mas também não feria. Era um intervalo — como o espaço entre duas
pancadas de sino, quando a cidade inteira segura o fôlego sem perceber.
Quando voltou ao centro da
sala, o pêndulo, sem ajuda, rangia um milímetro de vida. Não era o suficiente
para fazer tic-tac. Apenas um balanço tímido, quase imperceptível, como se o
relógio, teimoso, ensaiasse a própria ressurreição.
Ela estendeu a mão. Não
tocou. Deixou que o tempo decidisse sozinho de que lado cair.
Silvia Marchiori Buss
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