O Preço da Perfeição
Na cidade onde tudo parecia milimetricamente calculado, vivia Elisa, uma mulher que aprendera desde cedo a carregar o peso invisível da perfeição. Seu café nunca era servido sem a espuma lisa, sua mesa nunca tinha papéis fora de lugar, seu sorriso era sempre o adequado para cada ocasião. De tanto atender às expectativas, ela mesma já não sabia distinguir o que vinha de dentro e o que era só reflexo daquilo que esperavam dela.
As cobranças alheias, ao
longo dos anos, tornaram-se sua própria voz interior. Se o vestido tinha um fio
solto, ou se a vírgula escapava no texto que escrevia, ou se o jantar não
alcançava o sabor exato que todos elogiavam, era como se o mundo inteiro estivesse
em risco de desabar. E ninguém notava: diziam apenas que ela era admirável,
impecável, uma mulher “exemplo”.
Mas à noite, quando a casa
repousava, Elisa descia as escadas em silêncio, ia até a cozinha, abria a
janela e deixava o vento entrar. Só ali, no sopro fresco que bagunçava os
cabelos cuidadosamente alinhados, ela ousava se permitir um pouco de desordem. Chorava
baixinho, como quem lava por dentro o peso de ser irrepreensível.
Certa madrugada, encontrou
no vidro da janela o reflexo da própria face cansada. Foi nesse instante que
percebeu: já não eram os outros que a cobravam. Era ela mesma. A cada detalhe,
a cada gesto, se vigiava com a mesma rigidez com que fora vigiada durante toda
a vida. Perfeição para quem?, perguntou-se sem voz. E o silêncio devolveu a
pergunta como um eco sem resposta.
No dia seguinte, atravessou
a rua com passos contidos, o olhar fixo adiante. Não houve falha aparente, não
houve escândalo nem ruptura. Apenas uma sensação súbita de exaustão, como se
carregasse uma mala cheia de espelhos trincados — reflexos dela mesma,
multiplicados em fragmentos que já não se encaixavam.
Elisa seguiu. Não mais como
a mulher impecável que todos admiravam, mas como alguém que começava a
desconfiar do preço que pagara por parecer inteira quando, por dentro, estava
sendo lentamente apagada.
Silvia Marchiori Buss
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