O Homem Esquecido
Não havia retratos dele na parede, nem cartas guardadas em caixas de sapato. O homem esquecido não deixara rastros de amor nem de rancor — apenas o pó do tempo que, sem cerimônia, se instala sobre tudo o que não se move.
Chamava-se Antônio, embora
até o próprio nome fosse raramente lembrado. Não havia descendentes que
repetissem sua história na mesa do domingo, tampouco vizinhos que evocassem seu
humor ou suas manias. Era um homem que vivera na contenção das palavras, como
se soubesse que falar demais abre portas que nem sempre é possível fechar.
Trabalhara a vida inteira na mesma função, no mesmo canto, sem subir nem
descer. Um ponto imóvel dentro da engrenagem que girava indiferente.
E, no entanto, quem o visse
caminhando pelas ruas estreitas da cidade, de passos curtos e olhar demorado,
perceberia uma delicadeza silenciosa. Observava detalhes como quem procura um
segredo: a rachadura na parede antiga, o voo enviesado de um pardal, a criança
que ria sozinha sem testemunhas. Havia nele uma espécie de reverência pelo
insignificante.
Quando partiu, o mundo
seguiu sem abalos. O jornal não noticiou, os sinos não dobraram, os vizinhos
comentaram apenas em meia frase. Restou-lhe uma lápide de mármore barato, com
as letras já se apagando antes mesmo de completarem a primeira década. Era o
destino dos homens esquecidos: dissolver-se sem testemunho.
Mas eis o detalhe que
poucos sabiam — e talvez por isso mereça agora ser contado. Antônio guardava em
uma gaveta de ferro, trancada com chave, cadernos cheios de anotações. Não eram
memórias no sentido clássico. Eram observações de um mundo que ele habitara à
margem. O modo como a luz atravessava a vidraça da padaria às seis e vinte da
manhã, o cheiro metálico da chuva de outubro, a forma como os olhos de uma
mulher desconhecida pareciam carregar uma espera sem fim. Escrevia como quem se
defende do esquecimento: registrava aquilo que os outros deixavam escapar.
Quando a casa foi
esvaziada, anos depois, ninguém soube o que fazer com aqueles cadernos. Eram
páginas e mais páginas de silêncio transcrito, frases curtas, por vezes
enigmáticas, que não revelavam o autor, mas o mundo visto por ele. Alguns foram
queimados junto com jornais velhos. Outros acabaram na estante de um sebo,
misturados entre romances gastos e manuais de eletrônica.
Hoje, de quando em quando,
um leitor anônimo abre um desses cadernos e se surpreende com a nitidez de uma
frase:
"Um homem só é esquecido quando não deixou olhos emprestados ao
mundo."
E talvez, nesse instante de
leitura, Antônio deixe de ser apenas o homem esquecido, para se tornar aquilo
que sempre foi em segredo: o guardião do invisível.
Silvia Marchiori Buss
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