O Enigma do Homem da Capa Preta

A cidade não dormia — apenas fingia. Sob a chuva constante, as ruas brilhavam como serpentes encharcadas, refletindo o néon cansado dos bares que se arrastavam noite adentro. Os prédios, de fachadas barrocas e janelas altas, pareciam observar em silêncio, com suas estátuas descascadas e anjos de pedra que já perderam a inocência. Era uma cidade feita de excessos e ruínas, tão barroca quanto ele: cheia de sombras, curvas, segredos.

Entre o chiado dos postes e o bafo quente das sarjetas, caminhava o homem da capa preta.

Era conhecido. Todos já o tinham visto em becos, portas de hotéis baratos, vielas onde a miséria se escondia. Mas, por trás do rosto imóvel, havia algo que nem ele ousava encarar: um segredo que escondia até de sua própria alma.

Dizia-se que fora casado. Uma mulher de beleza discreta, dessas que parecem feitas de silêncio. Um dia, simplesmente não estava mais. Alguns sussurravam que ela o deixara por outro. Outros juravam que havia desaparecido — ou sido sumida. Ele nunca falou sobre isso. Nunca negou, nunca confirmou. Apenas guardou o silêncio como quem guarda uma lâmina no fundo da gaveta.

No bolso interno da capa, carregava três coisas: uma fotografia rasgada, onde só se via metade de um rosto feminino; uma carta nunca aberta, com o selo ainda intacto; e um anel pequeno demais para seus dedos. Nada mais. Nenhuma palavra, nenhum gesto que explicasse. Apenas esses vestígios, como se fossem provas de um crime sem solução.

Naquela noite, encostou-se no balcão de um bar esquecido na esquina da Rua dos Lamentos. Ao redor, colunas barrocas manchadas de umidade sustentavam o teto baixo. O uísque que pediu não era para beber — era apenas para marcar presença. Seu silêncio falava mais que qualquer palavra. Alguns clientes se afastaram discretamente, outros fingiram não reparar.

E quando se levantou, deixando o copo meio cheio, a cidade pareceu prender o fôlego. Porque junto dele vinha sempre um desfecho: uma dívida paga, um segredo revelado, um corpo desaparecido.

Ninguém sabia se buscava justiça, vingança ou apenas uma lembrança impossível de apagar. Talvez nem ele soubesse. Talvez fosse apenas a capa preta quem carregasse, sozinha, o peso da resposta.

Depois, como a própria noite, dissolveu-se na sombra das arcadas barrocas.
E o enigma permaneceu.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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