O Choro Sem Lágrima
Beatriz não sabia mais se chorava ou se apenas lembrava como se chorava. O rosto se contraía, o peito se movia em soluços curtos, mas os olhos permaneciam secos, como se tivessem se cansado de ser porta de saída.
Às vezes, passava horas
diante do espelho, apenas observando aquela ausência. O reflexo devolvia-lhe
uma mulher de olhar fixo, quase duro, que parecia não admitir fraqueza. Mas por
dentro havia rios inteiros represados, correndo sem barulho, cavando margens
invisíveis.
As pessoas ao redor
comentavam sobre sua força, sua coragem, sua capacidade de seguir em frente.
Ela não desmentia, tampouco confirmava. Apenas se calava, deixando que
pensassem o que quisessem. Era mais simples.
Na rua, andava com passos
firmes, mas era como se cada janela refletisse uma parte sua que não queria
ver. No mercado, segurava frutas, olhava-as demoradamente, e devolvia todas à
bancada. Nunca comprava. O caixa sorria, desejava bom-dia, e ela respondia num
fio de voz que mal chegava a ser ouvido.
No trabalho, o riso dos
outros a atravessava como uma corrente de ar frio. Sentava-se em frente à tela
do computador, digitava mecanicamente, mas de vez em quando se perdia olhando
para o cursor que piscava — aquele pequeno traço pulsante, lembrando-lhe uma
respiração que ela já não conseguia acompanhar.
À noite, quando os vizinhos
acendiam luzes e conversas escapavam das janelas abertas, Beatriz preferia a
escuridão. Andava pela casa como quem visita ruínas: cada objeto parecia falar,
mas nenhum dizia o que ela precisava ouvir.
Não havia lágrimas para
lavar a memória, apenas uma secura que a queimava por dentro. A dor sem alívio,
a dor que não escorria.
E, ainda assim, havia
instantes em que pensava: se o choro voltasse, talvez viesse como tempestade.
Talvez inundasse os móveis, arrastasse os quadros da parede, devolvesse às
fotografias a umidade que a vida lhes havia roubado. Talvez a fizesse boiar em meio
às lembranças — sem chão, sem direção, mas leve.
Mas não. Continuava seca.
Continuava Beatriz. Continuava no choro sem lágrimas que seguia como um rio
subterrâneo — invisível, incessante, sem promessa de desembocar em lugar algum.
Silvia Marchiori Buss
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