O Casal da Casa de Tijolos
A casa de tijolos parecia mais velha do que eles. Talvez fosse, talvez não. O tempo dentro dela tinha um modo curioso de se acumular: não em camadas visíveis de poeira ou rachaduras, mas em silêncios que colavam nas paredes. Quem entrava percebia logo que aquela casa não era apenas habitada — era cúmplice.
O casal que morava ali já
não sabia dizer se havia escolhido a casa ou se fora a casa quem os escolhera.
Tudo nela os espelhava: os tijolos gastos como suas mãos entrelaçadas, as
janelas que rangiam ao abrir, como gargantas cansadas de repetir sempre a mesma
frase. Havia dias em que se olhavam e percebiam que já tinham se transformado
na própria argamassa que sustentava o lugar.
Não eram infelizes. Mas
também não eram a promessa de felicidade que se imaginara no início. Estavam,
simplesmente, no meio: meio inteiros, meio gastos, meio lembrança e meio
presente. O amor deles tinha virado coisa de raiz — enterrado, firme, invisível
na superfície, mas segurando tudo o que ainda permanecia de pé.
Quando se olhavam, o
silêncio era maior que qualquer palavra. Um olhar longo, demorado, que não
buscava respostas — apenas constatava o inevitável: a vida estava passando, e
eles ainda estavam ali, um diante do outro, sustentando-se como as paredes
sustentavam o teto. O olhar dizia mais do que mil promessas, porque não
precisava do futuro para se justificar. Bastava o instante.
Cada um, às escondidas,
tinha seus próprios pensamentos. Ele pensava na vida como um rio que, mesmo sem
pressa, não para nunca. Perguntava-se se havia feito as escolhas certas, se
ainda havia tempo para outras margens. Ela pensava na vida como um caderno onde
as páginas já estavam quase todas preenchidas, e onde as palavras escritas,
certas ou erradas, não podiam mais ser apagadas. Cada um carregava dúvidas,
lembranças, vontades que nunca se disseram — mas, no fundo, sabiam que não era
preciso dizê-las. O outro reconhecia no olhar.
Às vezes, à noite, quando o
vento passava entre os tijolos e fazia a casa tremer, um deles dizia:
— A gente ainda está aqui.
E o outro respondia com um silêncio demorado, como quem confirma.
Naquela casa, eles tinham
visto os retratos se acumularem, os móveis mudarem de lugar, o jardim secar e
renascer em primaveras que chegavam como visitantes teimosos. Já não se
beijavam como antes, mas ainda compartilhavam o mesmo cobertor nas madrugadas frias.
Já não sonhavam com viagens, mas sonhavam, às vezes, com um café quente servido
pela mesma mão de sempre.
A casa sabia. Guardava cada
uma dessas migalhas de afeto como quem junta moedas num cofre. Sabia que não
era preciso espetáculo para manter de pé o que, sem alarde, resiste.
Um dia, os vizinhos
disseram que pensavam em comprar uma casa de tijolos, igualzinha. O casal
apenas sorriu, sem revelar o segredo. Porque sabiam que não eram os tijolos que
sustentavam a casa, mas o peso leve da vida que, mesmo sem brilho, eles
continuavam a dividir.
E assim, a cada entardecer,
quando a sombra da casa se alongava na calçada, parecia que os dois também se
estendiam juntos, invisíveis, como se fossem parte da mesma construção. Talvez
fossem. Talvez sempre tivessem sido. Talvez, um dia, a casa permanecesse
sozinha, mas ainda assim, respirando o olhar deles nos tijolos, como se cada
parede fosse feita de carne, memória e silêncio.
E quem passasse pela rua,
distraído, talvez jurasse ter visto na janela dois vultos imóveis, debruçados,
fitando o mesmo horizonte.
Silvia Marchiori Buss
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