Mais Um Dia
Mais um dia começava como tantos outros: o céu de um azul comum, as árvores imóveis, o silêncio entrecortado pelo canto de algum pássaro atrasado. Ela despertava como quem emerge debaixo d’água — tentando alcançar o ar, mas puxando apenas metade do fôlego. A outra metade ficava presa em algum ponto do peito, onde a ausência fazia morada.
Caminhava pela casa com
passos leves, não por delicadeza, mas por medo de acordar o vazio. O vazio
tinha sono leve: bastava um descuido para que se levantasse e a seguisse de
perto, lembrando-lhe a cada canto o que já não existia. A xícara na prateleira,
a poltrona junto à janela, o livro esquecido com a dobra na página — tudo eram
pequenas ruínas, vestígios de um tempo que permanecia suspenso.
Ainda assim, ela esperava.
Esperava como quem coloca um copo de água sob a chuva e acredita que, cedo ou
tarde, vai enchê-lo. Não esperava a volta — sabia que isso não existia —, mas
esperava que a dor aprendesse a se acomodar, que deixasse espaço para o ar
entrar por inteiro.
Às vezes pensava que a dor
era como uma pedra dentro dela: impossível de arrancar, mas que talvez, com o
tempo, se deixasse polir pelo atrito dos dias, até se tornar lisa, suportável,
quase bonita.
As estações se sucediam,
indiferentes ao que carregava no peito. Ela via o verão passar com seu exagero
de luz, via o outono derramar folhas sobre as calçadas como cartas não
enviadas, via o inverno trazer silêncios tão densos que pareciam neve acumulada
nos ombros. E esperava. Esperava pela última estação, aquela que, quem sabe,
devolveria um respiro inteiro, como um campo que se abre depois de anos de
geada.
Imaginava que a última
estação não seria feita de cores vivas, tampouco de promessas barulhentas.
Seria antes um tempo brando, em que o vento deixaria de soprar contra e
passaria apenas a roçar-lhe a pele. Talvez viesse em forma de um entardecer
longo, desses que não se apressam para escurecer. Talvez fosse apenas o
instante em que a saudade, cansada de gritar, resolvesse falar baixo.
Enquanto isso, vivia entre
respirações curtas, entre gestos pequenos, entre lembranças que surgiam sem
pedir licença. O mundo seguia seu curso: crianças atravessavam a rua com
mochilas maiores que os corpos, vizinhos fechavam janelas, o sol se punha como
sempre se pôs.
E ela, diante de tudo,
repetia consigo mesma: mais um dia. Não como vitória, tampouco como derrota.
Apenas como quem reconhece que, apesar do peso, o corpo ainda se move. Talvez
fosse esse o começo da esperança — não a de apagar a falta, mas a de aprender a
existir com ela, até que, enfim, chegasse a última estação.
Silvia Marchiori Buss
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