Eu Também Quero Que a Vida Continue Me Atropelando, LFV
A vida me atropela todos os dias — e, curiosamente, é nesse atropelo que sinto o coração bater mais forte, como se fosse a lembrança diária de que ainda estou aqui.
Atropela quando o
despertador toca no meio de um sonho bonito e me arranca sem cerimônia da cena
principal, deixando a sensação de um filme inacabado. Atropela quando o café
insiste em derramar, como se tivesse vontade própria, ou quando a fila do
supermercado se fecha na minha frente exatamente na hora em que escolhi a mais
curta, zombando da minha pressa. Atropela quando o trem parte no minuto exato e
eu ainda estou a dois passos do vagão, ou quando o vento do Léman decide fazer
da minha sombrinha um espetáculo de dança aérea, transformando-me em personagem
involuntária de uma comédia silenciosa.
Mas não são só os tropeços
engraçados. A vida me atropela também nas perdas que chegam sem aviso, nos
silêncios que pesam mais do que qualquer palavra, na saudade que me atravessa
feito vendaval. São atropelos que não dão risada, que deixam cicatrizes invisíveis,
que me fazem acordar no meio da noite sem saber se foi sonho ou ausência. Ainda
assim, até nesses atropelos que doem, existe algo de vital: lembram-me de que
sou feita de carne, de memória, de sangue que ainda corre.
E há os atropelos bons —
ah, esses eu agradeço de joelhos. O neto que me interrompe para pedir colo bem
na hora em que a frase estava saindo bonita no papel; e eu, sem pensar duas
vezes, largo a frase para ganhar um abraço que vale um livro inteiro. O vizinho
que pergunta “ça va?” sem imaginar que a resposta caberia em capítulos inteiros
de uma autobiografia. O encontro inesperado na rua, que bagunça meu cronograma
e, de repente, clareia minha alma como se tivesse aberto uma janela em pleno
inverno.
Também há os atropelos
pequenos, quase imperceptíveis, mas que se infiltram no dia como sementes. Um
pôr do sol que chega sem que eu tenha tempo de preparar a câmera, mas ainda
assim me rouba um suspiro. A música que toca na rádio e me arrasta para um tempo
antigo, em que eu dançava sem saber que a vida passaria tão depressa. O cheiro
de pão recém-saído do forno que atravessa a rua e me obriga a parar, respirar
fundo e reconhecer que o cotidiano pode ser um banquete.
No fundo, viver sem
atropelos seria como atravessar um mar sem ondas. Calmo demais, bonito por um
instante, mas monótono a ponto de adormecer qualquer barco. Prefiro as ondas
que me desequilibram, os choques que me fazem mudar de direção, os imprevistos que
obrigam meu corpo e minha alma a improvisar um novo passo de dança. Prefiro os
tropeços que me obrigam a rir de mim mesma, a respirar fundo, a recomeçar.
Por isso, sim: eu quero que
a vida continue me atropelando. Que derrube meus planos, embaralhe meus dias,
me obrigue a tropeçar no cascalho e a levantar rindo da própria queda. Que me
surpreenda com lágrimas e gargalhadas, que me desarrume e me arrume de novo,
como quem nunca cansa de brincar com a mesma peça de teatro.
Porque é nesse atropelo —
às vezes cruel, às vezes engraçado, quase sempre inesperado — que descubro, a
cada dia, o prazer de estar inteira. Inteira, ainda que feita de remendos.
Inteira, mesmo quando me sinto em pedaços. Inteira, porque é assim que a vida
me quer: viva.
Silvia Marchiori Buss
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