Entre Bordados e Silêncios

 A mãe sempre bordava perto da janela. O sol escorria pelos vidros e pousava nos fios coloridos, como se fosse cúmplice daquilo que nascia de suas mãos. A filha, ainda menina, se aproximava em silêncio, tentando não quebrar o feitiço. Ficava ali, hipnotizada pelo vai e vem da agulha, como quem observa o coração de alguém bater por fora do peito.

Nunca foram de falar demais. Criaram, sem perceber, uma língua própria, feita de olhares demorados, chá servido sem pedido, silêncio partilhado. Quando a filha estava triste, a mãe não perguntava. Apenas deixava um espaço ao lado dela, e a menina entendia que aquele era o seu lugar.

Os anos passaram, e os bordados se multiplicaram em gavetas e caixas. Cada flor costurada guardava um pedaço da história das duas; cada nó no avesso do tecido escondia uma lágrima que não chegou a escorrer. A filha cresceu olhando para aqueles pequenos jardins que a mãe plantava com linhas, e aprendeu que a vida também tem seu avesso — cheio de remendos e marcas que não aparecem no lado de fora.

Agora, já adulta, quando se senta diante de uma janela para bordar suas próprias linhas, ela não se sente sozinha. Carrega consigo o gesto da mãe, o silêncio da mãe, a forma como foi ensinada a existir sem nunca ter recebido uma lição. A mãe permanece em cada ponto que dá, em cada chá que oferece sem perguntar, em cada silêncio que escolhe guardar.

Quem sabe, talvez o amor seja isso: um bordado que se prolonga dentro de nós, mesmo depois que as mãos que começaram a costura já descansaram.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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