Ela Se Veste de Anjo
Era noite quando ela abriu a porta do quarto e entrou, trazendo nas mãos um vestido branco. Não era de festa, não era de noiva. Era simples, quase ingênuo, mas quando o colocou sobre o corpo, parecia outro.
O tecido caía leve, e os
ombros nus davam a impressão de que asas invisíveis poderiam nascer dali a
qualquer momento.
Não era carnaval, não era
dia santo, tampouco alguma encenação. Ela apenas se vestiu de anjo porque quis.
Talvez porque o silêncio da casa pedisse um gesto inesperado, talvez porque o
corpo precisasse de outra pele.
Andou pelo corredor, e os
passos descalços soavam como se não tocassem o chão. Na cozinha, pegou um copo
de água e ficou parada diante da janela. A rua estava deserta. O reflexo no
vidro lhe devolvia uma imagem quase estranha: era ela mesma, mas também alguém
que parecia não existir.
Seus olhos demoraram no
reflexo. Pareciam mais claros, como se tivessem guardado um brilho esquecido.
Sorriu sem pressa, e nesse sorriso não havia promessa nem explicação. Apenas a
constatação de que, por uma noite, ela podia ser outra coisa.
Foi então que sentiu — sem
perceber de onde — o peso leve de um olhar pousado sobre ela. Não vinha de
dentro da casa, pois ali ninguém mais habitava. Vivia sozinha. Talvez fosse
apenas o eco de sua imaginação. Talvez fosse um outro anjo, chamado pelo vestido,
que a observava em silêncio.
Ela não se deteve.
Continuou seu percurso, tocou os móveis como quem confirma que ainda estão ali.
Depois apagou as luzes uma a uma, até restar apenas a claridade azulada da
madrugada entrando pela janela.
Deitou-se ainda vestida,
deixando que o tecido cobrisse também os sonhos. Talvez voasse. Talvez não.
Talvez, ao amanhecer, guardasse o vestido de volta no fundo do armário, entre
roupas comuns, sem explicação.
E ninguém jamais saberia ao
certo o que acontecera naquela noite em que ela se vestiu de anjo.
Silvia Marchiori Buss
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